Nutrição Esportiva · 22 de setembro de 2026 · 9 min de leitura
PADEL: CÂIMBRAS E QUEDA DE ENERGIA
A câimbra chega sem aviso, sempre na hora errada: no terceiro set, na virada de um ponto decisivo, quando o jogo finalmente estava equilibrado. E a explicação que vem na sequência é sempre a mesma: faltou potássio, precisava ter comido banana, não se hidratou direito. O problema é que essa explicação está, em boa parte, errada. A ciência sobre câimbra mudou bastante nos últimos vinte anos, e a maioria dos jogadores de padel ainda está operando com informação desatualizada. O mesmo vale para a queda de energia no segundo ou terceiro set: o diagnóstico popular (falta de sódio, falta de água) cobre apenas uma parte do problema. Esse artigo junta as duas questões porque, no padel, elas aparecem juntas e têm origens mais entrelaçadas do que parecem.
O QUE O PADEL EXIGE DO SEU METABOLISMO
Antes de falar em câimbra e energia, é preciso entender o que o padel faz com o corpo. Uma revisão sistemática publicada em 2022 na revista Kinesiology (Mellado-Arbelo e Baiget), reunindo 12 estudos com 203 jogadores de diferentes níveis competitivos, descreveu o padel como um esporte de natureza intermitente, com respostas fisiológicas moderadas, baixa contribuição dos processos glicolíticos anaeróbicos na produção de energia e frequência cardíaca média entre 80 e 85% da frequência máxima durante as partidas. Um estudo publicado em 2023 na Applied Sciences, analisando parâmetros metabólicos em 22 jogadores treinados, chegou a conclusão semelhante: o sistema aeróbico é predominante, mas o metabolismo anaeróbico entra de forma relevante nas ações explosivas, como saques, smashes e dropshottes rápidos.
Na prática, isso significa que o padel não esgota o glicogênio muscular no ritmo brutal de um HYROX ou de uma corrida de fundo. Mas ele exige acelerações, mudanças de direção, saltos e golpes explosivos repetidos ao longo de uma hora ou mais. Essa combinação de esforço aeróbico contínuo com picos anaeróbicos frequentes é exatamente o tipo de demanda que mais tarde produz fadiga neuromuscular acumulada, e é aí que a câimbra encontra o seu terreno fértil.
CÂIMBRA NÃO É O QUE VOCÊ PENSA QUE É
A definição clínica de câimbra associada ao exercício (em inglês, exercise-associated muscle cramp, EAMC) é: contração involuntária, dolorosa e episódica do músculo esquelético, que ocorre durante ou imediatamente após o exercício. No padel, os músculos mais afetados costumam ser panturrilhas, isquiotibiais e quadríceps. Até aqui, nada novo. A novidade está na causa.
A explicação clássica, ainda repetida em grupos de WhatsApp e redes sociais, diz que câimbra é consequência de desidratação e perda de eletrólitos pelo suor. Essa hipótese foi o padrão por décadas, mas vem sendo sistematicamente questionada pela literatura científica desde os anos 2000. Schwellnus e colaboradores, em 2004, publicaram no British Journal of Sports Medicine um estudo com 72 corredores de ultramaratona comparando o status de eletrólitos séricos (sódio, potássio, magnésio, cálcio) e o grau de hidratação entre quem desenvolveu câimbra e quem não desenvolveu. O resultado foi desconcertante para o senso comum: não houve diferença significativa entre os grupos. Quem câimbrou e quem não câimbrou tinham níveis séricos equivalentes.
Em 2009, o mesmo Schwellnus publicou uma revisão no British Journal of Sports Medicine propondo a chamada teoria neuromuscular da câimbra. O modelo descreve um desequilíbrio entre o drive excitador dos fusos musculares e o drive inibitório dos órgãos de Golgi (GTOs) sobre os neurônios motores alfa. Em condições de fadiga muscular intensa, os fusos disparam mais e os GTOs inibem menos, gerando disparos repetidos e involuntários do neurônio motor. O resultado é a câimbra. Uma revisão narrativa publicada em 2016 (Nelson e Churilla) reuniu evidências de múltiplos estudos prospectivos e experimentais e concluiu que a EAMC é multifatorial, com o mecanismo neuromuscular como explicação mais plausível para a maioria dos cenários, e não a desidratação ou o déficit eletrolítico.
Mais recentemente, uma revisão de Maughan e Shirreffs de 2019, publicada na revista Sports Medicine, fez uma síntese honesta do estado da arte: os dois modelos provavelmente coexistem. Em condições de calor extremo com suor profuso e perdas de sódio muito elevadas, pode haver um componente eletrolítico. Na maioria dos contextos de esporte recreativo e competitivo, o modelo neuromuscular explica melhor. Não existe uma causa única universal.
O que isso muda na prática? Muda muito. Se a principal causa da câimbra é fadiga neuromuscular relativa ao que o músculo foi preparado para suportar, a solução central não é uma banana nem um comprimido de sal. A solução começa no treino, na progressão de carga e na alimentação que sustenta o músculo antes e durante o jogo.
E A BANANA? E O MAGNÉSIO?
A banana é o remédio folclórico mais famoso para câimbra. O problema é duplo. Primeiro: como mostrou o estudo de 2004, o nível sérico de potássio não distingue quem câimbra de quem não câimbra. Segundo: mesmo que fosse útil, o tempo de absorção e distribuição do potássio da banana é completamente incompatível com uma câimbra que cede em segundos quando você alonga o músculo. Não é plausível que o potássio da banana chegue ao músculo rápido o suficiente para causar esse efeito.
O magnésio tem uma história parecida. A revisão Cochrane sobre magnésio para câimbras musculares (Garrison et al., 2020), que analisou 11 ensaios clínicos com 735 participantes, foi categórica: magnésio oral não reduz câimbras musculares em adultos não grávidos. Em atletas especificamente, a evidência é negativa ou inconsistente. Se você está comprando magnésio especificamente para não câimbrar no padel, a ciência atual não sustenta essa indicação.
QUEDA DE ENERGIA: O QUE ESTÁ ACONTECENDO DE VERDADE
A queda de energia no segundo e terceiro set de padel raramente é um problema de um fator só. O padel é um esporte que dura de 60 a 90 minutos em média, com partidas profissionais podendo ultrapassar duas horas. Nesse tempo, o músculo vai consumindo glicogênio nos picos de intensidade. A revisão sistemática de 2022 confirma que o metabolismo aeróbico domina, mas os picos anaeróbicos frequentes puxam do glicogênio intramuscular. Quando esse estoque começa a cair, a capacidade de sustentar acelerações, a velocidade de recuperação entre os pontos e a qualidade dos golpes no final do set diminuem de forma perceptível.
A desidratação entra aqui com papel real, mas mais limitado do que a maioria imagina. Há evidência consistente de que uma perda hídrica equivalente a 2% do peso corporal prejudica o tempo de reação, a tomada de decisão e a capacidade aeróbica. Em condições de calor e umidade típicas do Brasil, isso pode acontecer em menos de 60 minutos de jogo intenso. A questão não é hidratar para prevenir câimbra, mas hidratar para manter a função cognitiva e aeróbica no nível que o jogo exige.
O sódio entra nessa equação porque é o principal eletrólito perdido no suor e o que governa a retenção de água pelo rim. Sem sódio adequado, beber apenas água pode diluir o sódio plasmático, fenômeno chamado de hiponatremia associada ao exercício. O 3rd International Exercise-Associated Hyponatremia Consensus Statement (Hew-Butler et al., 2015, Clinical Journal of Sport Medicine) deixou claro que o erro mais comum em atletas recreativos não é beber de menos, mas beber demais sem repor sódio, o que é mais grave do que a desidratação simples. A recomendação prática que emerge desse consenso é beber quando sentir sede, sem forçar volume além do que o corpo pede, e incluir sódio nas sessões mais longas e quentes.

OS FATORES REAIS DE RISCO PARA CÂIMBRA NO PADEL
Com base na literatura atual, os fatores que mais aumentam o risco de câimbra associada ao exercício são os seguintes, apresentados em ordem de evidência mais robusta para menos robusta:
- Intensidade acima do que o músculo está condicionado a suportar naquele dia. É o principal fator. Jogar mais sets do que o habitual, em ritmo mais acelerado ou em situação de competição com carga emocional maior ativa a câimbra por fadiga neuromuscular.
- Aumento abrupto de volume ou intensidade de treino nas semanas anteriores sem progressão adequada.
- Sono ruim e recuperação incompleta entre sessões, que reduz a capacidade do sistema neuromuscular de tolerar a carga.
- Desidratação significativa combinada com calor extremo, especialmente em jogadores com alta taxa de suor. Nesse cenário específico, o componente eletrolítico pode ter papel coadjuvante.
- Histórico pessoal de câimbra durante o exercício, que é um dos preditores mais consistentes na literatura.
ESTRATÉGIA PRÁTICA: ANTES, DURANTE E DEPOIS DO JOGO
A nutrição ao redor da partida de padel não é simples de padronizar porque depende da duração, do horário, do clima e do nível de condicionamento do jogador. O que a ciência permite dizer com mais segurança é o seguinte:
- Pré-jogo (2 a 3 horas antes): priorize uma refeição com carboidratos de absorção moderada, proteína e baixo teor de gordura e fibra. Arroz com frango, macarrão com molho leve, aveia com fruta são boas referências. O objetivo é chegar com o glicogênio muscular bem abastecido.
- 30 a 45 minutos antes: se a partida for longa ou em condições de calor, uma fonte pequena de carboidrato de absorção rápida (uma fruta, uma torrada com mel) pode ser útil para manter a glicemia estável nos primeiros sets.
- Durante o jogo: beba quando sentir sede, entre os pontos e nas trocas de lado. Não há necessidade de forçar volume. Em partidas acima de 75 a 90 minutos em clima quente, inclua sódio na bebida ou acompanhe com algum alimento levemente salgado. Reidratação com água pura em grandes volumes sem sódio é o cenário de maior risco para hiponatremia.
- Em jogos acima de 60 a 90 minutos: uma fonte de carboidrato de rápida absorção durante a partida (gel, bebida esportiva com carboidrato, fruta seca) ajuda a manter a oferta de glicose para o músculo e o cérebro nos sets finais.
- Pós-jogo (primeiros 30 a 45 minutos): combine carboidrato para ressíntese de glicogênio e proteína para reparo muscular. Uma dose de 20 a 30 g de proteína com uma fonte de carboidrato é o padrão com mais respaldo na literatura. Essa janela é especialmente importante se você joga novamente dentro de 24 horas.
- Hidratação geral: chegue à quadra já bem hidratado. Monitorar a cor da urina (amarelo claro é bom, amarelo escuro indica déficit) é o método mais simples e acessível para checar o status hídrico antes de jogar.
O QUE FAZER QUANDO A CÂIMBRA JÁ ACONTECEU
Quando a câimbra aparece no meio do ponto, a intervenção mais eficaz é também a mais simples: parar o movimento e alongar passivamente o músculo afetado. Isso ativa os órgãos de Golgi e interrompe o ciclo de disparo involuntário do neurônio motor, que é exatamente o que o modelo neuromuscular prevê. Esse mecanismo explica por que o alongamento funciona em segundos, enquanto a banana levaria minutos ou horas para ter qualquer efeito fisiológico.
Nos últimos anos, o suco de picles (pickle juice) ganhou atenção na literatura como possível intervenção aguda para câimbra. A hipótese é que compostos do suco estimulariam receptores orais que, via reflexo nervoso, reduziriam a excitabilidade dos neurônios motores. A evidência disponível é preliminar e baseada em amostras pequenas. Não há estudos de alta qualidade em jogadores de padel especificamente. Menciono porque circula bastante nas redes, mas com a ressalva de que a evidência ainda é fraca.
A QUADRA DE PADEL REVELA O QUE A DIETA ESCONDE
Uma das coisas que o padel faz muito bem é expor inconsistências nutricionais que passam despercebidas no dia a dia. Um jogador que câimbra toda semana no terceiro set não está com problema de potássio. Provavelmente está com carga de treino mal distribuída, glicogênio subabastecido porque entrou no jogo em déficit calórico ou com sono inadequado. Um jogador que murcha no segundo set em dias de calor provavelmente está chegando à quadra já levemente desidratado e sem carboidrato estratégico ao redor do jogo.
Nenhuma dessas situações se resolve com um suplemento avulso ou com a banana que o parceiro de dupla oferece na troca de lado. Se resolve com acompanhamento contínuo, que olhe para o padrão alimentar da semana, para a distribuição de carboidrato ao redor dos treinos e para o status de hidratação e sono antes de qualquer jogo importante.
No Método Overlife, o trabalho com quem joga padel passa por mapear exatamente esses padrões: o que o jogador come no dia de jogo, como chega hidratado, qual é a carga semanal acumulada e onde os gaps nutricionais aparecem. O resultado é uma estratégia construída para aquela pessoa, não uma receita genérica de isotônico e banana que serve para qualquer artigo de internet.
Assinado por
NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA
Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.





