Nutrição Esportiva · 18 de setembro de 2026 · 10 min de leitura
NUTRIÇÃO DO ATLETA MASTER DEPOIS DOS 40
Existe uma ideia muito difundida de que, depois dos 40, o atleta precisa aceitar que vai desacelerar. Perder força, acumular gordura e se recuperar mais devagar seriam destinos inevitáveis de quem envelhece. A ciência conta uma história bem diferente: atletas master, como são chamados os praticantes competitivos acima dos 35 a 40 anos, são frequentemente citados na literatura como modelos de envelhecimento bem-sucedido. O que os separa de pessoas sedentárias da mesma idade não é genética extraordinária, mas sim consistência no treino e, de forma cada vez mais evidente, uma estratégia nutricional ajustada à biologia dessa fase.
O problema é que a maior parte das diretrizes e protocolos de nutrição esportiva foi desenvolvida em estudos com atletas jovens, geralmente entre 18 e 30 anos. Traduzir esses números diretamente para quem tem 45 ou 50 anos e ainda treina com seriedade pode ser um erro significativo. Não porque o organismo do atleta master funcione de forma radicalmente diferente, mas porque algumas adaptações fisiológicas do envelhecimento exigem ajustes precisos. Este artigo explica quais são esses ajustes, com base no que a ciência realmente encontrou.
O MÚSCULO ESQUELÉTICO MUDA COM A IDADE, MESMO EM QUEM TREINA
A partir dos 35 anos, o organismo começa a apresentar um fenômeno chamado resistência anabólica, que é a redução na capacidade do músculo esquelético de responder aos aminoácidos da dieta e converter essa matéria-prima em proteína muscular nova. Em adultos sedentários mais velhos, esse processo é responsável por boa parte da perda de massa muscular associada à idade, a famosa sarcopenia. A boa notícia, bem documentada na literatura, é que o exercício físico regular atenua de forma importante essa resistência. Os atletas master que treinam consistentemente apresentam respostas anabólicas significativamente melhores do que adultos sedentários da mesma faixa etária.
Mas atenuar não significa eliminar. Um documento técnico do Gatorade Sports Science Institute (Sports Science Exchange nº 219), produzido por Daniel Moore, pesquisador de referência no tema, deixa claro que adultos mais velhos não treinados precisam de até 60% mais proteína por refeição para estimular ao máximo a síntese proteica muscular em repouso, em comparação com jovens, e que esse limiar também é maior após o exercício. Para o atleta master ativo, a curva dose-resposta está em algum ponto entre o adulto jovem e o sedentário mais velho, o que justifica ajustes na ingestão, mesmo que não tão dramáticos quanto se costuma imaginar.
QUANTO DE PROTEÍNA O ATLETA MASTER REALMENTE PRECISA
Uma revisão de escopo publicada na revista Nutrients em janeiro de 2025 analisou 12 estudos sobre ingestão proteica em atletas master e encontrou que o consumo real dessas pessoas variou entre 1,0 e 1,9 g por kg de peso corporal por dia. A Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva recomenda entre 1,4 e 2,0 g por kg por dia para pessoas que praticam exercício e querem construir ou manter massa muscular. Para a população mais velha, a ISSN destaca ainda que doses de até 40 g de proteína por refeição podem ser necessárias para otimizar a síntese proteica muscular, contra os 20 a 25 g que saturariam a resposta em homens jovens treinados.
Um ponto importante: a literatura atual sugere que, para atletas master que treinam com volume e intensidade consistentes, a necessidade proteica por refeição provavelmente não difere de forma dramática da de atletas jovens. A revisão publicada na Sports Medicine por Moore e colaboradores em 2021 argumenta, com base nos dados disponíveis, que grande parte da discussão sobre resistência anabólica severa se aplica muito mais ao adulto sedentário mais velho do que ao atleta ativo. Isso, porém, não é licença para relaxar: a faixa de 1,6 a 2,2 g por kg por dia, distribuída de forma equilibrada ao longo do dia em porções de pelo menos 30 a 40 g de proteína de alta qualidade, continua sendo a estratégia mais bem fundamentada para preservar e construir massa muscular nessa fase.
Qualidade da proteína importa aqui. Fontes animais como frango, ovos, carne bovina magra, peixes e whey protein oferecem perfil de aminoácidos mais completo e são metabolizadas com maior eficiência para síntese muscular. Proteínas vegetais podem funcionar, mas exigem volume maior ou combinação estratégica para entregar leucina suficiente, que é o aminoácido que mais diretamente ativa a sinalização anabólica no músculo.
CARBOIDRATO: O MACRONUTRIENTE QUE O ATLETA MASTER COSTUMA ABANDONAR SEM PRECISAR
Depois dos 40, é comum que as pessoas reduzam drasticamente o carboidrato da dieta, seja por conta de dietas da moda, seja por medo de engordar, seja por uma noção equivocada de que o organismo mais velho lida melhor sem ele. Para o atleta que mantém volume de treino relevante, isso pode ser um erro estratégico.
O carboidrato continua sendo o substrato energético preferencial para exercícios de moderada a alta intensidade, independentemente da idade. A literatura em nutrição esportiva para atletas master de endurance indica consumos ao redor de 8 g por kg de peso por dia para modalidades com alta demanda energética. Para atletas de força ou treino misto, o volume de carboidrato deve ser ajustado à carga de treino, mas restringir o carboidrato de forma crônica sem ajuste criterioso prejudica a recuperação, aumenta o catabolismo muscular e pode comprometer a qualidade do treino de forma silenciosa e progressiva.
O que muda com a idade não é a necessidade do carboidrato em si, mas a escolha das fontes e o contexto em que ele é consumido. Priorizar fontes de alta densidade nutricional e fibras (aveia, arroz integral, batata-doce, leguminosas, frutas) contribui também para a saúde metabólica e digestiva, que tende a pedir mais atenção nessa fase.
RECUPERAÇÃO MAIS LENTA: O DADO MAIS SUBESTIMADO DA EQUAÇÃO
Um dos impactos mais concretos do envelhecimento no atleta não está na contração muscular em si, mas no tempo e na qualidade da recuperação. Microlesões que um atleta de 25 anos absorve em 48 horas podem exigir 72 a 96 horas em alguém de 45, dependendo da intensidade, do volume e, principalmente, da nutrição ao redor do treino. Isso tem implicações diretas no planejamento de treino e nas estratégias nutricionais peritreinamento.
Nesse contexto, o papel do ômega-3 merece destaque. Uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados publicada em 2024 encontrou que a suplementação com ômega-3, em torno de 2.400 mg por dia por aproximadamente quatro semanas e meia, reduziu marcadores de inflamação e dano muscular após exercício. A evidência ainda não é suficientemente robusta para definir doses ideais específicas para atletas master, mas o mecanismo faz sentido biológico, especialmente levando em conta que o envelhecimento está associado a uma inflamação de baixo grau crônica, chamada de inflammaging na literatura científica, que pode comprometer a regeneração tecidual.
A creatina aparece como outro suplemento com evidência relevante para essa população. Além do efeito clássico na ressíntese de fosfato de creatina e na performance em esforços explosivos, estudos mostram que a creatina pode atuar como antioxidante e ajudar a reduzir a inflamação em adultos que envelhecem. A dose de 3 a 5 g por dia é a mais respaldada pela literatura atual.

MICRONUTRIENTES QUE O ATLETA MASTER NÃO PODE IGNORAR
Com o envelhecimento, a capacidade de absorver certos micronutrientes a partir da dieta diminui, e a exposição ao sol, uma das principais fontes de vitamina D, tende a ser menor em pessoas com rotina intensa de trabalho. Para atletas master, a vitamina D assume um papel duplo: saúde óssea e função muscular. A síntese cutânea de vitamina D declina com a idade, e a deficiência desse nutriente está associada a piora na força muscular, maior risco de lesões e recuperação mais lenta.
O cálcio também merece atenção especial. A perda de densidade óssea começa a se acelerar nessa fase, especialmente em mulheres na perimenopausa e na pós-menopausa. Para o atleta master, a saúde óssea não é apenas uma questão de longevidade, é uma questão de disponibilidade para treinar. Uma fratura de estresse ou perda precoce de densidade pode interromper meses de periodização.
A vitamina B12 é outro micronutriente que merece monitoramento. A produção de ácido gástrico, necessária para a absorção dessa vitamina a partir dos alimentos, tende a declinar com a idade. Deficiência de B12 compromete a formação de glóbulos vermelhos e a função neurológica, dois sistemas críticos para qualquer atleta.
O QUE AJUSTAR, NA PRÁTICA
- Mantenha a ingestão proteica diária entre 1,6 e 2,2 g por kg de peso corporal, distribuída em pelo menos quatro refeições ao longo do dia, com porções de 30 a 40 g de proteína de alta qualidade por refeição.
- Não elimine o carboidrato sem uma razão técnica clara. Ajuste o volume à carga de treino, priorizando fontes com fibras e densidade nutricional.
- Planeje o peritreinamento: proteína mais carboidrato nas duas horas após o treino acelera a recuperação e protege a massa muscular.
- Considere creatina monohidratada na dose de 3 a 5 g por dia. A evidência de segurança e eficácia para atletas adultos é sólida.
- Avalie o status de vitamina D com exame de sangue (25-OH-D) e suplemente conforme o resultado, sob orientação profissional.
- Garanta cálcio suficiente na dieta: laticínios, sardinha com espinha, tofu e vegetais verde-escuros são boas fontes.
- Inclua fontes de ômega-3 regularmente, como peixes gordurosos (salmão, sardinha, atum) ou suplementação com EPA e DHA, especialmente se o volume de treino for alto.
- Monitore vitamina B12, principalmente se a dieta for predominantemente plant-based ou se a absorção gástrica for questionada por queixa clínica.
- Ajuste o volume de treinamento ao tempo de recuperação real, não ao tempo que você tinha aos 28. A nutrição pode acelerar a recuperação, mas não substituir o descanso.
O QUE A EVIDÊNCIA AINDA NÃO RESPONDE
É honesto dizer que a literatura específica sobre atletas master ainda tem lacunas relevantes. A revisão da Nutrients de 2025 destaca que os estudos sobre ingestão proteica nessa população são diversos e escassos, o que dificulta recomendações muito precisas e individualizadas baseadas apenas em evidência de alta qualidade. Grande parte do que se sabe foi gerado em adultos não treinados mais velhos, e a tradução para atletas master altamente ativos ainda é feita com cautela na ciência.
Da mesma forma, as doses ideais de suplementos como ômega-3 e creatina para essa população específica ainda carecem de estudos de maior qualidade e longa duração. O que existe são mecanismos plausíveis e evidências preliminares ou de qualidade moderada, o que justifica considerar esses recursos, mas não adotá-los de forma indiscriminada ou em doses elevadas sem monitoramento.
PERFORMANCE NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE, MAS EXIGE INTELIGÊNCIA
O atleta master que chega aos 45 ou 50 anos ainda treinando pesado e mantendo performance não está desafiando a biologia. Está colaborando com ela. O corpo humano responde ao estímulo e à nutrição ao longo de toda a vida adulta, e a capacidade de adaptação, embora diferente da fase jovem, não desaparece. O que muda é a margem de erro: em um jovem de 22 anos, uma semana de alimentação descuidada dificilmente compromete a composição corporal ou a performance de forma significativa. Em um atleta de 48 anos com treino sério, o impacto de negligenciar proteína, carboidrato ou micronutrientes acumula de forma mais rápida e mais difícil de reverter.
No Método Overlife, a abordagem para o atleta master parte exatamente desse ponto: não existe protocolo genérico que funcione para todos depois dos 40. O que existe é um conjunto de princípios bem embasados e uma avaliação individual detalhada, que leva em conta o histórico de treino, os exames laboratoriais, os objetivos, a fase da vida e o contexto real de cada pessoa. É esse nível de individualização que separa uma estratégia nutricional que funciona de uma que apenas faz sentido no papel.
Este artigo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação individualizada por nutricionista habilitado. Ajustes em suplementação, doses de micronutrientes e estratégias nutricionais devem ser feitos com base em avaliação clínica e laboratorial específica para cada pessoa.
Assinado por
NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA
Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.





