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Vitaminas & Micronutrientes · 16 de agosto de 2026 · 13 min de leitura

IODO E TIREOIDE: O MINERAL QUE O BRASIL QUASE RESOLVEU E A DIETA MODERNA ESTÁ DESFAZENDO

Existe um mineral que o corpo humano precisa em quantidade ridícula, algo em torno de uma colher de chá ao longo de uma vida inteira, e que mesmo assim é capaz de derrubar a sua energia, o seu metabolismo e a sua capacidade de treinar se faltar. Esse mineral é o iodo.

O iodo tem uma função só, mas ela é enorme: ele é matéria-prima obrigatória dos hormônios da tireoide. O T4 tem quatro átomos de iodo na molécula, o T3 tem três. Sem iodo, a tireoide simplesmente não consegue fabricar hormônio, por mais saudável que ela esteja. É o único nutriente do corpo com um endereço tão específico assim.

O Brasil resolveu esse problema há décadas, com uma das políticas de saúde pública mais bem sucedidas da nossa história. E é justamente por isso que quase ninguém fala de iodo hoje. O problema é que a dieta dos anos 2020 começou a desmontar essa solução por três caminhos ao mesmo tempo, e a maioria das pessoas não faz ideia de que está fazendo isso.

O QUE O IODO FAZ, EM UMA FRASE

A tireoide captura o iodo que circula no sangue e o acopla a uma proteína para montar T4 e T3. Esses hormônios regulam a taxa metabólica basal, a temperatura corporal, a frequência cardíaca, o funcionamento intestinal, o humor e, no caso de quem treina, a resposta ao esforço e a recuperação.

Vale um detalhe que quase sempre fica de fora: o T4 é a forma de estoque e o T3 é a forma ativa. A conversão de um no outro depende de enzimas chamadas iodotironinas desiodases, que precisam de selênio para funcionar. O Instituto Linus Pauling, da Oregon State University, descreve exatamente isso, e registra também que a deficiência simultânea de selênio piora os efeitos da deficiência de iodo. Ou seja, iodo e selênio trabalham juntos, e olhar um sem o outro dá um retrato incompleto.

QUANTO VOCÊ PRECISA POR DIA

Os números são baixos e bem estabelecidos. O Instituto Linus Pauling lista a recomendação diária de 150 microgramas para adultos, 220 microgramas para gestantes e 290 microgramas para lactantes. O nível máximo tolerável para adultos é de 1.100 microgramas por dia.

O Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, apoiado nas recomendações da Organização Mundial da Saúde, do ICCIDD e do UNICEF, apresenta a mesma lógica com pequenas variações: 90 microgramas para crianças de 0 a 7 anos, 120 microgramas dos 7 aos 12, 150 microgramas acima dos 12 anos, e de 200 a 250 microgramas para gestantes e lactantes.

Repare na distância entre a recomendação e o teto: 150 microgramas de necessidade contra 1.100 de limite. Parece uma margem confortável. Mais adiante você vai ver que ela é bem mais fácil de estourar do que parece.

A POLÍTICA PÚBLICA QUE QUASE NINGUÉM CONHECE

O Brasil tornou a iodação do sal obrigatória em 1953, pela Lei número 1.944, de 14 de agosto. A lógica era simples e brilhante: se praticamente toda a população consome sal, adicionar iodo ao sal alcança todo mundo, do centro urbano ao interior mais distante, sem precisar convencer ninguém de nada.

Funcionou. O bócio endêmico e o cretinismo por deficiência de iodo, que eram problemas reais no país, deixaram de ser questão de saúde pública em larga escala.

As faixas de iodação mudaram ao longo do tempo. A RDC 130 de 2003 estabeleceu de 20 a 60 miligramas de iodo por quilo de sal. Em 2013, a RDC 23 reduziu essa faixa para 15 a 45 miligramas por quilo, movimento acompanhado de perto pelo Departamento de Tireoide da SBEM e por pesquisadores brasileiros, porque havia sinais de que parte da população estava consumindo iodo acima do necessário.

O RETRATO BRASILEIRO É MAIS COMPLICADO DO QUE ESTÁ TUDO CERTO

Aqui a evidência nacional fica interessante, e ela não conta uma história única.

O Estudo Brasileiro de Tireoide, divulgado em 2018, avaliou 18.978 escolares de 6 a 14 anos em 477 municípios, com coleta feita entre 2008 e 2014. A mediana nacional de iodo urinário ficou em 276,75 microgramas por litro, o que se classifica como mais que adequada. O Nordeste apresentou a maior mediana, 298,80 microgramas por litro, encostando no limiar de excesso. O Sul apresentou a menor, 248 microgramas por litro.

Só que a média nacional escondeu bolsões importantes. O mesmo levantamento identificou deficiência relevante na região Norte, com destaque para Amazonas e Maranhão, onde 23,8 por cento da população avaliada estava exposta à deficiência de iodo. E os próprios pesquisadores apontaram a necessidade de estudos com representatividade nacional para monitorar gestantes, idosos e crianças, especialmente depois de 2013, quando o teor de iodo no sal foi reduzido.

Essa lacuna começou a ser preenchida. O estudo EMDI-Brazil, publicado na revista Nutrients em 2025, analisou 1.891 gestantes em 11 municípios de 9 estados e do Distrito Federal, cobrindo Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A mediana de iodo urinário foi de 186,7 microgramas por litro, com percentil 25 em 118,05 e percentil 75 em 280,93.

O número que importa é o próximo: 36,7 por cento das gestantes, ou 694 mulheres, apresentavam deficiência de iodo. E 3,6 por cento, ou 68 mulheres, apresentavam consumo acima do recomendado. Os autores concluem que o status geral foi adequado, mas com prevalência significativa tanto de deficiência quanto de excesso.

Traduzindo: o Brasil não tem um problema de iodo, tem dois, em direções opostas, ao mesmo tempo e em populações diferentes. E é por isso que a resposta toma iodo que resolve é errada em qualquer cenário.

O SAL QUE VIROU TENDÊNCIA

O sal rosa do Himalaia, o sal marinho artesanal e as flores de sal viraram sinônimo de escolha saudável. O problema é que a política brasileira de iodação foi desenhada para o sal comum de cozinha, e esses produtos frequentemente escapam dela.

Um estudo publicado na revista Vigilância Sanitária em Debate, do INCQS/Fiocruz, analisou 71 amostras de sal rosa do Himalaia coletadas em 13 cidades de São Paulo entre 2016 e 2020. Apenas 31 amostras, 44 por cento do total, atenderam à faixa legal brasileira de 15 a 45 miligramas de iodo por quilo. As outras 40, 56 por cento, ficaram fora.

O detalhamento das inadequações é o que mais chama atenção: 28 por cento das amostras não tinham iodo nenhum, 21 por cento estavam abaixo de 15 miligramas por quilo e 7 por cento estavam acima de 45. Na rotulagem, 46 por cento sequer declaravam a adição de iodo.

Ou seja, quem trocou o sal comum pelo sal rosa achando que estava fazendo uma escolha melhor pode ter, sem saber, retirado da própria dieta a principal fonte de iodo do país.

A COMIDA DE VERDADE QUE SAIU DO PRATO

As fontes alimentares relevantes de iodo são poucas: sal iodado, laticínios, ovos, peixes e frutos do mar, e algas marinhas. Fora isso, o teor de iodo nos alimentos depende do solo, e boa parte do território brasileiro tem solo pobre em iodo.

Repare em quantas dietas populares hoje cortam exatamente essa lista. Dieta sem laticínio, dieta vegana, dieta de quem não come peixe, dieta com restrição de sódio levada ao pé da letra.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no British Journal of Nutrition reuniu 11 artigos e 4.421 adultos e comparou o status de iodo entre veganos, vegetarianos e onívoros. Os veganos apresentaram a menor concentração mediana de iodo urinário entre os grupos. Um achado que merece destaque: nenhum dos grupos alimentares avaliados ficou dentro da faixa considerada ótima pela OMS, de 100 a 200 microgramas por litro. Os autores concluem que vegetarianos, e particularmente veganos, que vivem em países sem programa vigente de iodação universal do sal, seguem com risco aumentado de baixo status de iodo.

A COMIDA INDUSTRIALIZADA QUE USA SAL SEM IODO

Este é o ponto menos comentado dos três. A obrigatoriedade de iodação recai sobre o sal destinado ao consumo humano direto. Grande parte do sal usado na indústria de alimentos processados não é iodada. Então uma dieta com muito produto pronto pode ser altíssima em sódio e, ainda assim, pobre em iodo. Sódio alto não é sinônimo de iodo adequado, e essa confusão é bastante comum.

ONDE A COISA INVERTE: O EXCESSO TAMBÉM ADOECE

Se você chegou até aqui pensando então é só suplementar iodo por garantia, precisamos falar da outra metade da evidência. E ela é robusta.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na PLOS ONE em 2017 reuniu 50 artigos, sendo 3 ensaios de intervenção, 6 estudos de caso-controle, 6 estudos de seguimento e 35 estudos transversais, avaliando populações com ingestão excessiva de iodo. Comparando populações com excesso contra populações com ingestão adequada, o risco de hipotireoidismo franco em adultos apresentou odds ratio de 2,78, com intervalo de confiança de 1,47 a 5,27. Para hipotireoidismo subclínico, o odds ratio foi de 2,03, com intervalo de 1,58 a 2,62.

Aqui é obrigatório colocar a ressalva com todas as letras, porque os próprios autores colocam: a maior parte dos estudos incluídos era observacional e de baixa qualidade, com ajuste insuficiente para fatores de confusão. Isso não anula o achado, mas significa que estamos falando de uma associação consistente, não de uma relação causal cravada.

O mecanismo por trás disso tem nome: efeito Wolff-Chaikoff. Quando a exposição ao iodo é muito alta, a própria tireoide reduz a produção hormonal como mecanismo de autorregulação. Na maioria das pessoas isso é transitório. Em quem já tem doença tireoidiana de base, pode não ser.

E existe um segundo achado, mais desconfortável ainda. Um estudo publicado no European Journal of Endocrinology em 2019, com 2.808 adultos chineses, acompanhado de uma meta-análise dose-resposta reunindo 22 estudos epidemiológicos e 69.987 participantes, descreveu uma relação em forma de U entre status de iodo e autoimunidade tireoidiana. Tomando como referência o grupo com status mais que adequado, a deficiência apresentou odds ratio de 1,50, com intervalo de 1,03 a 2,17, e o excesso apresentou odds ratio de 1,68, com intervalo de 1,11 a 2,53.

Vale a honestidade metodológica: nesse mesmo estudo, o grupo classificado como adequado também apareceu com odds ratio de 1,50, o que é um resultado estranho e sugere que a categorização por faixas de iodúria tem limitações reais. O padrão em U se sustenta na literatura mais ampla, mas os pontos de corte exatos ainda estão em discussão.

Uma meta-análise dose-resposta publicada na Frontiers in Endocrinology em 2026, com 25 estudos transversais, 54.621 participantes e 13.569 casos de nódulos tireoidianos, encontrou o mesmo formato em U. A deficiência, com iodúria em torno de 50 microgramas por litro, apresentou odds ratio de 1,28, com intervalo de 1,09 a 1,50. Já as faixas mais altas não alcançaram significância estatística: com 250 microgramas por litro o odds ratio foi de 1,02, intervalo de 0,93 a 1,11, e com 350 microgramas por litro foi de 1,13, intervalo de 0,98 a 1,30. O risco mínimo se concentrou entre 100 e 299 microgramas por litro.

Ou seja: para nódulo tireoidiano, a evidência de dano pelo excesso é mais fraca do que a evidência de dano pela falta. Já para disfunção tireoidiana e autoimunidade, o excesso pesa. É um quadro com nuance, e quem apresenta isso como resposta simples está apresentando errado.

O PERIGO REAL: SUPLEMENTOS DE ALGAS

Se existe uma parte prática deste artigo que eu gostaria que você guardasse, é esta.

A American Thyroid Association tem uma declaração específica sobre riscos do excesso de iodo. Ela desaconselha ingestão acima de 1.100 microgramas por dia e recomenda que suplementos não ultrapassem 500 microgramas diários de iodo para crianças, adultos, gestantes e lactantes.

Sobre suplementos de kelp e algas, a declaração é direta: muitos desses produtos contêm iodo em quantidades até vários milhares de vezes maiores do que o limite superior tolerável diário. Não é exagero de linguagem, é a descrição do que se encontra no mercado.

Folhas de alga marinha seca empilhadas sobre mesa de madeira arranhada ao lado de pote de vidro âmbar aberto, com migalhas espalhadas e sol forte entrando pela direita
Suplemento de alga é o caminho mais rápido para estourar o limite de iodo em várias vezes sem perceber.

O motivo é que o teor de iodo em algas marinhas é absurdamente variável. O Instituto Linus Pauling registra que uma porção de duas colheres de sopa de nori tem cerca de 116 microgramas, enquanto o consumo de kelp em dietas asiáticas tradicionais pode chegar a algo entre 1.000 e 3.000 microgramas por dia, com potencial de causar disfunção tireoidiana.

E os grupos de maior risco para efeitos adversos do excesso, segundo a mesma declaração, são lactentes, idosos, gestantes, lactantes e pessoas com doença tireoidiana preexistente. Ou seja, exatamente quem mais costuma ser alvo de propaganda de suplemento para a tireoide.

E QUEM TREINA PESADO E SUA MUITO?

Essa pergunta aparece bastante, e a resposta honesta é: não sabemos direito.

Existe uma discussão publicada em 2005 na literatura de endocrinologia, sob o título Iodine Uptake and Loss: Can Frequent Strenuous Exercise Induce Iodine Deficiency?, que levanta a hipótese de que a perda de iodo pelo suor possa ser relevante em atletas, especialmente em ambiente quente e úmido, e que em áreas com ingestão apenas moderada essa perda possa se aproximar da perda urinária.

Preciso ser claro sobre o peso disso: trata-se de uma análise teórica com cálculos estimativos, não de um ensaio clínico. E os próprios autores concluem que não existe, até aquele momento, argumento para suplementar iodo em quem faz exercício vigoroso, ainda que alertem para possíveis implicações de perdas sustentadas.

Então a leitura correta é esta: a hipótese é plausível, a evidência é preliminar e insuficiente, e ela não justifica suplementação. O que ela justifica é não cortar o iodo da dieta achando que treino pesado é indiferente a isso. São coisas bem diferentes.

A PEGADINHA DOS ALIMENTOS BOCIOGÊNICOS

Você provavelmente já leu que brócolis, couve, repolho, soja e mandioca atrapalham a tireoide. A informação existe, mas está quase sempre mal contada.

Esses alimentos contêm compostos que interferem no aproveitamento do iodo. O detalhe decisivo, conforme o Instituto Linus Pauling, é que essa interferência tem relevância quando a ingestão de iodo é inadequada. Com iodo suficiente, o risco desses alimentos é mínimo.

Traduzindo para a vida real: a resposta para brócolis e couve não é parar de comer brócolis e couve. É garantir iodo adequado e seguir comendo vegetais, que fazem bem por dezenas de outros motivos.

COMO APLICAR NA PRÁTICA

  • Use sal iodado comum na cozinha do dia a dia. É a forma mais barata, mais segura e mais bem estudada de garantir iodo. Se você gosta de sal rosa ou de sal marinho, use como acabamento, não como fonte única.
  • Leia o rótulo do seu sal e procure a menção de adição de iodo. No estudo brasileiro com sal rosa, quase metade das amostras nem declarava isso.
  • Não confunda sódio alto com iodo adequado. Uma dieta cheia de produto industrializado pode ter muito sódio e pouquíssimo iodo, porque o sal da indústria em geral não é iodado.
  • Se você tirou laticínios, ovos, peixes e frutos do mar da rotina, esse é o cenário de maior risco. Nesse caso, a fonte de iodo precisa ser planejada de propósito, não deixada ao acaso.
  • Se você segue dieta vegana ou vegetariana estrita, converse com o seu nutricionista sobre iodo especificamente. A meta-análise no British Journal of Nutrition mostra que esse grupo é o mais vulnerável.
  • Não compre suplemento de alga, kelp ou complexo para tireoide por conta própria. É o caminho mais rápido para estourar o limite superior em várias vezes, sem perceber.
  • Se você está grávida, planejando engravidar ou amamentando, esse assunto é prioridade e é conversa de consultório. A necessidade sobe para a faixa de 200 a 250 microgramas por dia e mais de um terço das gestantes brasileiras avaliadas no EMDI-Brazil estava deficiente.
  • Se você tem tireoidite de Hashimoto, doença de Graves ou qualquer diagnóstico tireoidiano, nunca aumente iodo por conta própria. Esse é justamente o grupo em que o excesso mais cobra caro.
  • Cansaço persistente, intolerância ao frio, queda de cabelo e ganho de peso sem explicação pedem investigação com TSH e T4 livre, com médico. Não pedem suplemento comprado por palpite.
  • Lembre que iodo e selênio andam juntos na produção do T3. Faz mais sentido olhar o conjunto do que perseguir um nutriente isolado.

O iodo é o exemplo mais claro de um princípio que eu repito muito no consultório: em nutrição, mais quase nunca é melhor. A curva não é uma reta subindo, é um U. A falta adoece e o excesso adoece, e o espaço confortável entre os dois é exatamente onde uma alimentação bem construída coloca você sem nenhum esforço heroico.

O que torna esse tema perigoso hoje não é a falta de informação, é o excesso de informação vendida. De um lado, a moda alimentar que retira silenciosamente a principal fonte de iodo do brasileiro sem avisar. Do outro, a indústria de suplementos que oferece a solução em doses que a própria American Thyroid Association classifica como milhares de vezes acima do limite. As duas pontas erram, e quem paga a conta é a sua tireoide.

O caminho é o de sempre, e é menos glamouroso: entender o seu contexto real de alimentação, checar o que precisa ser checado com exame de verdade, ajustar o que tem evidência e ignorar o que só tem propaganda. É exatamente essa a lógica do Método Overlife, olhar o seu caso com dado na mão em vez de aplicar um protocolo genérico. Se você quer entender o que está por trás do seu cansaço, do seu metabolismo e do seu rendimento, comece pelo diagnóstico gratuito aqui do site.

Assinado por

NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA

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