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Vitaminas & Micronutrientes · 7 de setembro de 2026 · 11 min de leitura

DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS MAIS COMUNS NO BRASIL

O Brasil é um país tropical com sol quase o ano inteiro, com frutas abundantes e diversidade alimentar invejável, e mesmo assim a maioria dos brasileiros adultos apresenta ingestão insuficiente de pelo menos um micronutriente essencial. Esse não é um paradoxo sem explicação: é o resultado documentado de um padrão alimentar que acumula calorias de ultraprocessados enquanto desperdiça a densidade nutricional de alimentos minimamente processados. A consequência prática é uma forma silenciosa de má nutrição, que não aparece na balança, mas aparece no exame de sangue, no nível de energia, na qualidade do sono, na imunidade e no desempenho físico.

O quadro tem nome técnico: fome oculta, ou deficiência subclínica de micronutrientes. E os dados que fundamentam essa afirmação não são especulativos. Eles vêm de pesquisas nacionais robustas, incluindo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE), o Inquérito Nacional de Alimentação (INA), o Estudo Brasileiro de Nutrição e Saúde (EBANS) e o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019). Este artigo organiza o que essas fontes dizem, nomeia as deficiências mais documentadas e explica o que cada uma delas significa na prática para quem treina, trabalha e quer ter saúde de verdade.

O CONTEXTO: COMER MUITO E NUTRIR POUCO

O Brasil vive uma transição nutricional peculiar. Em cinco décadas, o país passou de altas taxas de desnutrição clássica para uma situação em que mais da metade da população adulta tem excesso de peso, mas persiste com carências significativas de micronutrientes. Segundo o Ministério da Saúde, enquanto os indicadores de excesso de peso seguem subindo, as deficiências de ferro e vitamina A continuam presentes, e o ressurgimento de casos de beribéri (deficiência de vitamina B1) em alguns estados nordestinos sinaliza que problemas que pareciam superados ainda existem em grupos vulneráveis.

Uma análise publicada na Revista de Saúde Pública em 2021, comparando os dados do INA de 2008-2009 com a POF de 2017-2018, mostrou que os micronutrientes com maior prevalência de inadequação em ambos os períodos foram cálcio, magnésio, vitaminas A, D e E. Em alguns desses nutrientes, mais da metade da população ficava abaixo da recomendação média estimada. Isso é evidência forte, gerada a partir de dezenas de milhares de indivíduos avaliados com recordatórios alimentares e metodologia estatística robusta.

VITAMINA D: DEFICIENTE ATÉ NO VERÃO

A deficiência de vitamina D é provavelmente o achado mais contraintuitivo em saúde pública brasileira. Um estudo representativo, publicado no Journal of the Endocrine Society em 2023 com dados coletados durante o verão em Salvador, São Paulo e Curitiba, encontrou deficiência de vitamina D (abaixo de 20 ng/mL) em 15,3% dos participantes e insuficiência (abaixo de 30 ng/mL) em 50,7%. Em outras palavras, mais de dois em cada três adultos saudáveis estavam abaixo do limite considerado ótimo para funções além do metabolismo ósseo, e isso foi medido no período de maior irradiação solar do ano.

Os pesquisadores concluíram que o Brasil deve ser considerado um país de risco para deficiência de vitamina D, com prevalências próximas às observadas em países europeus. Os principais fatores preditores foram o índice de massa corporal elevado, a maior latitude e o menor tempo de exposição ao sol, este último agravado por rotinas cada vez mais internas. Vale destacar: esse estudo foi conduzido por pesquisadores da UFPR, da Unifesp e da Fiocruz Bahia, o que lhe confere alta credibilidade no contexto nacional.

A vitamina D não age apenas no cálcio e no osso. Receptores dessa vitamina estão presentes em tecido muscular, células imunes e neurônios. A insuficiência crônica está associada a maior risco de fraturas por estresse, força muscular reduzida e resposta imune comprometida. Para quem treina, esses efeitos são funcionais, não apenas laboratoriais. Um importante alerta, no entanto: a suplementação de vitamina D sem dosagem prévia não é necessariamente isenta de riscos, especialmente em doses altas. A investigação laboratorial individualizada é insubstituível antes de qualquer protocolo de reposição.

FERRO: O MICRONUTRIENTE QUE AINDA FAZ VÍTIMAS EM MASSA

A anemia ferropriva é a deficiência nutricional de maior magnitude reconhecida pelo Ministério da Saúde como problema de saúde pública no Brasil. Os dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) mostram prevalência de anemia em 29,4% das mulheres em idade fértil, com as maiores taxas no Nordeste (39%). Em crianças menores de 5 anos, a mesma pesquisa identificou 20,9% com anemia, o que corresponde a cerca de 3 milhões de crianças brasileiras.

Uma revisão sistemática com metanálise publicada no PeerJ em 2022, que compilou dados de estudos com mulheres em idade fértil no Brasil, estimou uma prevalência de 25% de anemia ferropriva, chegando a 30% nas regiões Norte e Nordeste. Um outro braço dessa análise, que incluía gestantes, encontrou prevalência de 28%. A concentração nos grupos femininos não é coincidência: perdas menstruais regulares aumentam a demanda por ferro de forma significativa, e a dieta média brasileira não compensa esse déficit de maneira consistente.

Para quem pratica exercício físico intenso, o problema se agrava por uma razão adicional: o treinamento de endurance aumenta a hemólise mecânica (destruição de glóbulos vermelhos pelo impacto dos pés no solo) e a perda de ferro pelo suor. Uma pessoa pode ter hemograma normal e ainda assim estar com ferritina baixa, o que já é suficiente para reduzir a capacidade aeróbica, aumentar a percepção de fadiga e comprometer a recuperação. Deficiência de ferro sem anemia é um tema tratado em outro artigo desta série, mas o ponto aqui é que a ferritina isolada, fora do quadro de anemia, já representa problema funcional real.

CÁLCIO E MAGNÉSIO: OS DOIS GRANDES AUSENTES DA MESA BRASILEIRA

Cálcio e magnésio dividem o posto de minerais com as maiores prevalências de inadequação de ingestão no Brasil, de acordo com múltiplas pesquisas populacionais. O EBANS, estudo transversal com 1.812 adultos brasileiros das cinco macrorregiões, publicado na revista Nutrients em 2024, encontrou probabilidade de inadequação acima de 85% para ambos os minerais, independente da faixa etária, mas com tendência crescente conforme a idade avança. Outros estudos com adolescentes e jovens adultos usando metodologia similar apontaram prevalência de inadequação acima de 83% para cálcio e magnésio em ambos os sexos.

Um estudo de base populacional conduzido em São Paulo com dados do ISA-Nutrição 2015, publicado em 2022, confirmou que mais de 80% dos moradores da cidade tinham ingestão inadequada de magnésio. A explicação é direta: magnésio está concentrado em vegetais de folha escura, leguminosas, oleaginosas e grãos integrais, todos alimentos que perderam espaço para ultraprocessados no padrão alimentar contemporâneo. A publicação na Louzada et al. (2015) no PubMed Central já demonstrava que quanto maior a participação de ultraprocessados na dieta brasileira, menor a densidade de micronutrientes, incluindo magnésio, vitamina C e zinco.

As consequências de magnésio cronicamente baixo não são dramáticas de forma aguda, o que as torna perigosamente negligenciadas. O magnésio participa de mais de 300 reações enzimáticas, incluindo síntese de ATP, regulação do ritmo cardíaco, sensibilidade à insulina e relaxamento muscular. Níveis subótimos estão associados a câimbras, sono de pior qualidade, maior percepção de estresse e resistência à insulina. Já o cálcio inadequado não se manifesta de imediato na contração muscular, porque o organismo rouba cálcio dos ossos para manter a função nervosa e cardíaca, acelerando perda de massa óssea ao longo dos anos.

Frigideira com filé de carne bovina pela metade, garfo apoiado sobre ela, ao lado um prato com folhas de espinafre amassadas e feijão, bancada com migalhas e uma faca usada.
Ferro heme de carnes vermelhas e ferro não-heme de folhas escuras e leguminosas: fontes complementares para quem precisa elevar os estoques.

VITAMINA A: O PROBLEMA QUE PERSISTE NAS MARGENS

A deficiência de vitamina A no Brasil tem um perfil geográfico e social bem definido: ela é mais prevalente nas regiões Norte e Nordeste, em crianças pequenas e em mulheres de baixa renda. O ENANI-2019 encontrou deficiência de vitamina A (retinol sérico abaixo de 0,7 µmol/L) em cerca de 6% das crianças brasileiras menores de cinco anos. Uma revisão sistemática com metanálise publicada no British Journal of Nutrition em 2023 estimou prevalências significativas em mulheres em idade fértil, especialmente nas regiões mais vulneráveis.

Os dados da POF 2017-2018 revelaram que 89% dos adultos brasileiros entre 19 e 59 anos apresentavam ingestão insuficiente de vitamina A, um aumento em relação aos 85% registrados na POF 2008-2009. Esses números se referem à inadequação de consumo alimentar, não necessariamente à deficiência plasmática, e é importante fazer essa distinção: ingestão abaixo da recomendação não implica automaticamente em deficiência funcional, pois o organismo tem reservas hepáticas. Ainda assim, a magnitude do dado é preocupante e sinaliza um padrão dietético pobre em fontes de retinol (fígado, ovos, laticínios) e de beta-caroteno (vegetais laranja, folhas escuras).

VITAMINA B12 E ZINCO: AS DEFICIÊNCIAS QUE CRESCEM COM A MUDANÇA DO PADRÃO ALIMENTAR

O ENANI-2019 identificou prevalência de 14,2% de deficiência de vitamina B12 em bebês de 6 a 23 meses, o que reflete tanto o status nutricional materno quanto as escolhas alimentares na introdução alimentar. A B12 é encontrada exclusivamente em alimentos de origem animal, e sua absorção depende da produção de fator intrínseco pelo estômago. Isso coloca vegetarianos, veganos, idosos com gastrite atrófica e usuários crônicos de metformina ou inibidores de bomba de prótons em risco elevado de deficiência. A evolução dos dados da POF mostrou aumento na prevalência de inadequação de cobalamina (B12) entre mulheres de 2008-2009 para 2017-2018, dado que pode refletir tanto o crescimento de dietas plant-based sem suplementação quanto o aumento do uso de medicamentos que interferem na absorção.

Já o zinco tem um perfil particular de risco: está presente em carnes vermelhas, frutos do mar e sementes, e a inadequação é historicamente alta em crianças pequenas. O estudo ISA-Nutrição de São Paulo, publicado em 2022, encontrou alta prevalência de ingestão inadequada de zinco entre homens. Dados de revisão de consumo alimentar em crianças brasileiras publicados na ScienceDirect mostraram prevalência de inadequação de zinco entre 20% e 99,4%, variação muito ampla que reflete as diferentes metodologias e populações estudadas. Aqui, a evidência é mais heterogênea e deve ser interpretada com cautela.

POR QUE ISSO ACONTECE NUM PAÍS DE CLIMA TROPICAL E TERRA FÉRTIL

A resposta curta é: porque a riqueza agrícola do Brasil não se traduz automaticamente em qualidade nutricional do que vai ao prato. O padrão alimentar brasileiro contemporâneo se afastou progressivamente de alimentos in natura e minimamente processados, que concentram micronutrientes, e incorporou proporções cada vez maiores de ultraprocessados, que entregam energia com pouca densidade nutricional. Isso foi documentado pela Louzada e colaboradores em publicação no PubMed Central em 2015: quanto maior a participação de ultraprocessados na dieta, menor o teor de vitaminas e minerais por caloria consumida.

A isso se somam fatores que não dependem só do que se come: a baixa exposição solar real (e não apenas a disponibilidade geográfica de sol), o uso crescente de medicamentos que interferem na absorção de micronutrientes, a prevalência de disbiose intestinal que compromete a biodisponibilidade de ferro e zinco, e as desigualdades regionais e socioeconômicas que restringem o acesso a alimentos de qualidade nas populações mais vulneráveis.

O QUE DIZ A CIÊNCIA SOBRE COMO CORRIGIR ESSAS CARÊNCIAS

A alimentação continua sendo a primeira e mais sólida linha de ação. Para a maioria das deficiências listadas aqui, corrigir o padrão alimentar resolve ou pelo menos atenua o problema. A suplementação é necessária em situações específicas: veganos sem B12, pessoas com deficiência comprovada por exame, grupos com demanda aumentada como gestantes, atletas de endurance com ferritina baixa, e idosos com absorção comprometida.

  • Dosagem periódica: vitamina D (25-OH vitamina D), ferritina sérica, vitamina B12, magnésio eritrocitário (sérico subestima a deficiência) e zinco plasmático são os exames mais informativos para rastrear as deficiências mais comuns.
  • Diversificação alimentar de verdade: incluir diariamente folhas escuras, leguminosas, oleaginosas, ovos e carnes, rotacionando as fontes de ferro heme (carnes) e não-heme (feijão, lentilha, espinafre).
  • Associar ferro não-heme com vitamina C: a absorção do ferro de origem vegetal pode aumentar em até três vezes quando consumido junto com uma fonte de ácido ascórbico. Na prática, um copo de laranja no almoço.
  • Exposição solar intencional: 15 a 30 minutos de sol direto em braços e pernas entre 10h e 15h, sem protetor, é suficiente para síntese significativa de vitamina D para a maioria dos fototipos. Isso deve ser adaptado conforme o fototipo e o risco de câncer de pele.
  • Reduzir a participação de ultraprocessados: mais do que adicionar suplementos, reduzir o que rouba espaço dos alimentos densos em micronutrientes é a mudança estrutural mais eficaz.
  • Suplementação só com diagnóstico: a vitamina D em doses altas sem exame prévio pode causar hipercalcemia. O ferro suplementado sem indicação pode aumentar estresse oxidativo. Cada micronutriente tem uma faixa de segurança que precisa ser respeitada.
  • Atenção especial a grupos de risco: mulheres em idade fértil, gestantes, vegetarianos e veganos, idosos, atletas de endurance e usuários crônicos de medicamentos como metformina, IBPs e diuréticos devem monitorar mais frequentemente.

UM PADRÃO QUE VAI ALÉM DO INDIVIDUAL

É relevante dizer que as deficiências nutricionais descritas aqui têm causas estruturais que extrapolam as escolhas individuais. Desigualdade de acesso, custo de alimentos frescos, propaganda de ultraprocessados, condições de trabalho que impossibilitam exposição ao sol e refeições de qualidade, tudo isso contribui para o quadro epidemiológico. O Ministério da Saúde reconhece essa complexidade e mantém programas de suplementação para grupos específicos, como a suplementação de ferro para crianças de 6 a 18 meses e de vitamina A para crianças em regiões de risco. Mas os dados mostram que esses programas não resolveram completamente o problema, e que a inadequação persiste mesmo em populações urbanas com acesso razoável à alimentação.

COMO O MÉTODO OVERLIFE ABORDA ESSE CENÁRIO

As deficiências nutricionais não são um problema genérico com solução genérica. A prevalência populacional diz que é provável que você tenha ao menos uma delas, mas qual é, em que grau e o que fazer a respeito depende de quem você é, como você treina, como você dorme, quais medicamentos usa e o que aparece no seu exame de sangue. No Método Overlife, a investigação de micronutrientes faz parte da avaliação inicial e do acompanhamento contínuo, não como protocolo de suplementação em massa, mas como rastreamento individualizado que informa decisões estratégicas de alimentação e, quando necessário, de suplementação pontual e temporária. A diferença entre tratar o mapa e tratar o território é exatamente essa: saber o que falta em você, não o que falta na média.

Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada. As informações aqui apresentadas são baseadas em evidências populacionais e não devem ser usadas como base para autodiagnóstico ou automedicação. Se você suspeita de deficiência nutricional, procure um profissional de saúde habilitado para solicitação e interpretação de exames adequados.

Assinado por

NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA

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