Saúde & Longevidade · 16 de setembro de 2026 · 9 min de leitura
ULTRAPROCESSADOS E MORTALIDADE NO BRASIL: O QUE A CIÊNCIA MAIS RECENTE REALMENTE DIZ
Uma em cada dez mortes no Brasil pode ser atribuída ao consumo de alimentos ultraprocessados. Esse número não veio de um alarmismo nas redes sociais: foi a conclusão de um estudo inédito da Fiocruz, conduzido pelo pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz Brasília e do Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP), publicado em novembro de 2024. O custo econômico associado a essas mortes prematuras chega a R$ 10,4 bilhões por ano, incluindo gastos diretos no SUS, perdas previdenciárias e produtividade perdida pelo afastamento de pessoas em plena idade ativa.
Antes de seguir, é preciso dizer com clareza o que isso significa e o que não significa. Associação não é a mesma coisa que causa comprovada em laboratório. Os estudos que chegam a esses números são, em sua maioria, observacionais e epidemiológicos, e por isso carregam limitações metodológicas que os próprios pesquisadores reconhecem. Mas a quantidade e a consistência das evidências acumuladas ao longo dos últimos anos já é suficiente para que a ciência trate o tema com seriedade e urgência, e para que qualquer pessoa que se preocupa com longevidade também o faça.
O QUE É UM ULTRAPROCESSADO, AFINAL
O conceito vem da classificação NOVA, criada em 2009 por pesquisadores da USP e adotada amplamente pela literatura científica global. O sistema divide os alimentos em quatro grupos com base no grau de processamento industrial a que foram submetidos, não apenas nos nutrientes que contêm. O grupo 4, dos ultraprocessados, reúne formulações industriais feitas principalmente a partir de substâncias extraídas de alimentos ou sintetizadas em laboratório: gorduras modificadas, amidos modificados, proteínas hidrolisadas, xarope de frutose, maltodextrina e uma lista de aditivos cosméticos como aromatizantes artificiais, emulsificantes, corantes, edulcorantes e estabilizantes. Biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, refrigerantes, bebidas lácteas adoçadas, pães de forma industriais, macarrão instantâneo, nuggets e embutidos processados são exemplos clássicos.
A diferença em relação a um alimento simplesmente processado, como uma sardinha em conserva ou um queijo maturado, está justamente na extensão do processamento e na presença de ingredientes que você nunca usaria numa cozinha doméstica. Esse detalhe é importante porque muitas críticas à classificação NOVA argumentam que ela é arbitrária. É uma discussão legítima na academia, mas não invalida o padrão geral que as evidências apontam.
O QUE OS ESTUDOS MOSTRAM DE FATO
Em fevereiro de 2024, o British Medical Journal publicou uma revisão guarda-chuva de meta-análises epidemiológicas que avaliou a relação entre consumo de ultraprocessados e 32 desfechos de saúde diferentes. A conclusão mais forte: evidências de nível I (o mais alto da escala adotada pelo estudo) sustentam a associação entre maior consumo de ultraprocessados e risco elevado de mortalidade por doenças cardiovasculares, com um risco relativo de 1,50 (intervalo de confiança de 95%: 1,37 a 1,63). Também houve evidência de nível I para diabetes tipo 2, ansiedade e transtornos mentais comuns. Para outros desfechos, como alguns tipos de câncer e saúde gastrointestinal, os autores reconheceram que as evidências ainda são limitadas e precisam de mais investigação.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Systematic Reviews em março de 2025 reuniu 18 estudos de coorte prospectivos publicados entre 2019 e 2024, envolvendo mais de 1,1 milhão de participantes e 173 mil casos de morte. Os resultados apontaram associação significativa entre consumo elevado de ultraprocessados e mortalidade por todas as causas, embora os autores tenham ressaltado a heterogeneidade entre os estudos como limitação importante. A magnitude do risco variou conforme o tipo de ultraprocessado, o método de medição dietética e as populações analisadas.
Em 2025, um estudo publicado no American Journal of Preventive Medicine e conduzido pelo mesmo pesquisador da Fiocruz, Eduardo Nilson, analisou dados alimentares de oito países, entre eles o Brasil, e estimou que cada aumento de 10% na participação de ultraprocessados nas calorias da dieta eleva o risco de morte prematura em cerca de 3%. A fração de mortalidade atribuível ao consumo desses produtos variou de 4% nos países com menor ingestão a aproximadamente 14% naqueles onde ultraprocessados representam mais da metade das calorias consumidas por adultos.
Para o Brasil especificamente, os dados da Fiocruz apontam que o impacto de 10,5% nas mortes tem variação regional importante: Rio Grande do Sul chega a 13%, Santa Catarina a 12,5% e São Paulo a 12,3%. O próprio pesquisador reconhece que os números são conservadores, porque o cálculo se concentrou apenas nas três doenças crônicas com maior base de evidências associadas ao consumo de ultraprocessados: obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão arterial. Outros desfechos não foram contabilizados.
É relevante destacar também um estudo de 2023 conduzido por pesquisadores do Nupens/USP que cruzou dados alimentares do IBGE com dados de mortalidade e estimou que 57 mil mortes prematuras por ano no Brasil têm ligação com doenças crônicas associadas ao consumo de ultraprocessados. Vale lembrar: trata-se de evidência epidemiológica observacional. Estudos clínicos controlados para confirmar causalidade definitiva na mortalidade simplesmente não são viáveis por razões éticas e logísticas óbvias. Isso não elimina a relevância dos achados, mas é importante que o leitor entenda essa distinção.
POR QUE ULTRAPROCESSADOS FAZEM MAL: OS MECANISMOS PROPOSTOS
A questão mais debatida na ciência atual é: o problema está nos nutrientes que esses alimentos contêm (excesso de açúcar, gordura saturada, sódio e calorias) ou existe algo além disso? A evidência acumulada sugere que é provavelmente as duas coisas, com alguns mecanismos ainda sob investigação.
Do ponto de vista nutricional, ultraprocessados tendem a ser densos em calorias, pobres em fibras, proteínas de qualidade, micronutrientes e compostos bioativos. Isso já seria suficiente para associá-los a disfunção metabólica. Mas os pesquisadores levantam hipóteses adicionais que a evidência atual, embora ainda parcialmente observacional, começa a corroborar:
- Inflamação sistêmica: emulsificantes e aditivos presentes em muitos ultraprocessados podem alterar a composição da microbiota intestinal e aumentar a permeabilidade da barreira do intestino, favorecendo um estado inflamatório crônico de baixo grau.
- Disbiose intestinal: estudos em modelos animais e alguns dados observacionais humanos sugerem que o padrão dietético rico em ultraprocessados reduz a diversidade microbiana intestinal e favorece espécies associadas a marcadores inflamatórios elevados.
- Desregulação da saciedade: a combinação de alta palatabilidade, rápida digestão e baixa densidade de fibras pode comprometer os sinais hormonais de saciedade, levando ao consumo involuntário de mais calorias.
- Contaminantes do processamento: o processo industrial pode gerar subprodutos como acrilamida, furanos e compostos de glicação avançada (AGEs), cujos efeitos crônicos na saúde humana ainda são objeto de pesquisa.
- Exposição a embalagens: migração de ftalatos, bisfenol A e outros compostos das embalagens para o alimento é mais frequente em produtos ultraprocessados, que geralmente têm contato mais longo com o material de embalagem.
Nenhum desses mecanismos está completamente elucidado. Os próprios autores das revisões mais rigorosas pedem mais pesquisa mecanicista. O que existe hoje é um conjunto de critérios epidemiológicos e biológicos que, tomados em conjunto, aponta uma direção bastante consistente.

O CONSUMO NO BRASIL E O CENÁRIO DE RISCO
O Brasil está num nível intermediário de consumo de ultraprocessados quando comparado globalmente: os produtos do grupo 4 da NOVA representam entre 20% e 30% das calorias da dieta do brasileiro adulto médio, bem abaixo dos aproximadamente 55% observados nos Estados Unidos e no Reino Unido. Mas o estudo de oito países publicado no American Journal of Preventive Medicine deixou claro que, mesmo nesse patamar intermediário, o impacto na mortalidade prematura já é mensurável e relevante. E a tendência de consumo no país é de crescimento.
Uma modelagem publicada em fevereiro de 2026 no mesmo periódico, envolvendo pesquisadores brasileiros, projetou que um aumento de 50% no preço dos ultraprocessados, por meio de tributação, poderia evitar cerca de 1,8 milhão de novos casos de doenças crônicas e até 236 mil mortes ao longo de vinte anos no Brasil. É importante contextualizar: essa projeção considerou apenas os efeitos mediados pelo excesso de peso, não os efeitos diretos dos ultraprocessados, e portanto também pode ser lida como conservadora.
ONDE A EVIDÊNCIA AINDA É FRACA
Honestidade intelectual exige reconhecer os limites do que sabemos. A relação entre ultraprocessados e alguns tipos específicos de câncer, por exemplo, ainda é considerada preliminar e inconsistente entre estudos. A relação com saúde gastrointestinal e com doenças renais também carece de mais evidências sólidas. Há debate legítimo sobre se a categoria NOVA é homogênea o suficiente: um iogurte com adoçante e um salgadinho de queijo são ambos ultraprocessados, mas provavelmente têm perfis de risco diferentes.
Outro ponto importante: boa parte dos estudos usa questionários de frequência alimentar para medir o consumo, e essa metodologia tem erros de memória e de estimativa de porções. Além disso, quem consome mais ultraprocessados tende a ter menor escolaridade, menor renda e pior acesso a cuidados de saúde em geral, o que pode confundir os resultados. Os estudos de melhor qualidade tentam controlar essas variáveis, mas o controle nunca é perfeito em pesquisa observacional.
O QUE FAZER COM ESSAS INFORMAÇÕES NA PRÁTICA
A questão nunca é eliminar um grupo de alimentos da vida de forma radical e permanente. É entender o padrão geral e fazer escolhas que façam sentido dentro da realidade de cada pessoa. Alguns pontos práticos que a evidência disponível permite sustentar:
- Reduza a frequência, não se paralise com a exceção: consumo ocasional de ultraprocessados não é o que os estudos associam ao aumento de risco. O problema é o padrão consistente de alta dependência desses produtos no dia a dia.
- Leia a lista de ingredientes, não apenas a tabela nutricional: se os primeiros ingredientes forem substâncias que você não usaria numa cozinha caseira, o produto provavelmente está no grupo 4 da NOVA.
- Aumente a proporção de alimentos in natura e minimamente processados: ovos, carnes não processadas, legumes, frutas, feijão, arroz, tubérculos e oleaginosas formam a base que a evidência mais consistentemente associa à proteção da saúde.
- Atenção ao contexto das refeições: ultraprocessados são projetados para substituir refeições feitas em casa. Cozinhar mais, mesmo que de forma simples, é uma das formas mais efetivas de reduzir a exposição a esses produtos.
- Não demonize nem normalize: o objetivo não é ansiedade alimentar, é consciência. Um biscoito recheado de vez em quando não mata ninguém. Uma dieta em que esse tipo de produto domina a maior parte das calorias ao longo de anos é outro cenário.
- Observe os sinais metabólicos: quem consome muitos ultraprocessados frequentemente apresenta marcadores inflamatórios elevados, disglicemia e perfil lipídico alterado antes de sentir qualquer sintoma. Exames periódicos são parte da estratégia.
- Atenção especial ao ambiente alimentar de crianças e adolescentes: a exposição precoce molda preferências alimentares de longo prazo, e o impacto cumulativo ao longo de décadas é o que os estudos de mortalidade estão captando.
LONGEVIDADE NÃO SE DECIDE EM UM ÚNICO ALIMENTO
O que a ciência sobre ultraprocessados e mortalidade revela, no fundo, é algo que a nutrição de qualidade sempre soube: padrões alimentares importam mais do que alimentos isolados. Não existe um veneno único nem um alimento milagroso. O que existe é um padrão alimentar dominado por produtos industrialmente formulados para serem palatáveis e convenientes, mas que foram construídos para maximizar vendas, não para sustentar saúde.
Nesse contexto, o papel do acompanhamento nutricional individualizado é justamente sair do campo das generalizações e entender o que está acontecendo com o organismo de cada pessoa: quais marcadores estão alterados, qual é o padrão alimentar real, quais são as barreiras concretas para mudar e quais estratégias fazem sentido para aquela vida específica. Isso é o que o Método Overlife propõe: não uma dieta temporária de restrição, mas um processo contínuo de ajuste estratégico que coloca o plano alimentar a serviço de longevidade e performance reais.
Este artigo tem caráter educativo e não substitui a avaliação individualizada por profissional de saúde habilitado. Se você tem doenças crônicas diagnosticadas, faz uso de medicamentos ou apresenta condições de saúde específicas, consulte seu médico e nutricionista antes de fazer alterações significativas na alimentação.
Assinado por
NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA
Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.





