Suplementação · 27 de agosto de 2026 · 7 min de leitura
TONGKAT ALI E FADOGIA AGRESTIS: O QUE A CIÊNCIA MOSTRA SOBRE OS BOOSTERS DE TESTOSTERONA DA MODA
Nenhuma dupla de suplementos cresceu tanto nos últimos anos quanto Tongkat Ali e Fadogia Agrestis. Eles aparecem juntos em quase todo pote vendido como booster natural de testosterona, geralmente com a mesma promessa: mais energia, mais libido, mais músculo, sem receita médica. A combinação é tão comum que muita gente assume que os dois têm o mesmo respaldo científico. Não têm. E a diferença entre eles é justamente o que este texto precisa deixar claro, porque um deles tem ensaios clínicos em humanos e o outro simplesmente não tem nenhum.
DOIS SUPLEMENTOS, DOIS NÍVEIS DE EVIDÊNCIA BEM DIFERENTES
Tongkat Ali é o nome popular da Eurycoma longifolia, uma planta do sudeste asiático usada há séculos na medicina tradicional da Malásia e da Indonésia. Fadogia Agrestis é um arbusto africano, usado tradicionalmente na Nigéria. Os dois foram empacotados pelo marketing como se fossem irmãos. Na literatura científica, eles vivem em mundos separados: um tem revisão sistemática com meta-análise de ensaios randomizados, o outro tem estudos em ratos e uma lista de perguntas de segurança em aberto.
TONGKAT ALI: O QUE OS ENSAIOS EM HUMANOS MOSTRAM
Em 2022, Leisegang, Finelli, Sikka e Panner Selvam publicaram na revista Medicina uma revisão sistemática com meta-análise sobre Eurycoma longifolia e testosterona em homens. Foram 9 estudos incluídos na revisão e 5 ensaios clínicos randomizados na meta-análise, somando 232 participantes. As doses usadas variaram de 100 a 600 miligramas por dia, por períodos que iam de 3 dias a 6 meses.
O resultado agrupado foi favorável ao suplemento: aumento estatisticamente significativo da testosterona total, com diferença média padronizada de 1,352 e intervalo de confiança de 95 por cento entre 0,565 e 2,138, com p de 0,001. Na análise por subgrupo, o efeito apareceu de forma mais clara em homens hipogonádicos, ou seja, com testosterona total abaixo de 300 nanogramas por decilitro. Em homens com testosterona acima desse valor houve aumento, porém menos pronunciado.
Até aqui parece uma vitória limpa. Só que a mesma publicação lista as limitações, e elas pesam. As amostras eram pequenas e heterogêneas, os desenhos e as durações variavam bastante, e o teste de Begg detectou viés de publicação, com p de 0,0243. Viés de publicação significa que estudos com resultado negativo provavelmente não chegaram a ser publicados, o que infla o efeito médio observado. Além disso, a maioria dos ensaios usou o mesmo extrato comercial padronizado, o que limita a generalização para os potes genéricos vendidos por aí, já que o teor de eurycomanona, o marcador ativo, varia muito entre produtos. Na avaliação de risco de viés pela ferramenta Cochrane, dois estudos tinham risco baixo, um tinha risco alto e dois tinham preocupações moderadas.

Traduzindo para o consultório: existe sinal real, ele é mais consistente em quem já tem testosterona baixa, e ele foi medido com um extrato específico que pode não ser o que está no seu pote.
E PARA GANHAR MÚSCULO, FUNCIONA?
Em 2024, Morgado e colaboradores publicaram no International Journal of Impotence Research uma revisão sistemática dos chamados boosters de testosterona, avaliando 27 substâncias propostas em quatro populações diferentes: atletas homens, homens com hipogonadismo de início tardio, homens inférteis e homens saudáveis.
A conclusão dos autores é direta: a maioria falha em aumentar a testosterona total. As exceções que apareceram com efeito em atletas foram o beta hidroxi beta metilbutirato, o HMB, e a betaína. A Eurycoma longifolia foi classificada como possivelmente eficaz para homens com hipogonadismo de início tardio e para homens saudáveis, apoiada em 3 estudos dentro dessa revisão.
Repare no que essa frase diz e no que ela não diz. Ela fala em mover um hormônio no exame. Ela não afirma que isso se converte em mais massa muscular, mais força ou melhor desempenho esportivo. Subir testosterona dentro da faixa normal, por meio de suplemento, não é a mesma coisa que ganhar músculo, e não existe base para prometer hipertrofia com Tongkat Ali. Quem faz essa ponte no anúncio está preenchendo com marketing um espaço que a ciência deixou vazio.
FADOGIA AGRESTIS: ZERO ESTUDO EM HUMANOS
Agora a parte incômoda. Não existe, até hoje, um único estudo clínico em humanos publicado sobre Fadogia Agrestis. Nenhum. Toda a fama do ingrediente vem de pesquisa em roedores e de repercussão em podcasts e redes sociais.
O que existe na literatura animal é o trabalho do grupo de Yakubu, na Nigéria, publicado no Journal of Ethnopharmacology em 2008, testando o extrato aquoso do caule da planta sobre índices de função testicular em ratos machos. A leitura que se faz desse conjunto de estudos em roedores é de aumento expressivo de testosterona, na ordem de 2 a 6 vezes conforme a dose, em protocolos curtos de poucos dias, além de aumento do peso testicular na faixa de 11 a 15 por cento e sinais de efeito pró erétil.

Números grandes em ratos impressionam, e é exatamente por isso que eles viraram material de anúncio. Mas rato não é gente, dose por quilo de rato não se traduz linearmente para humano, cinco dias não são um ciclo de suplementação, e nenhum desses estudos mediu o que interessa a você: composição corporal, força, sintoma clínico ou segurança de uso prolongado em pessoas.
O PROBLEMA DE SEGURANÇA QUE NÃO ESTÁ NO RÓTULO
O mesmo grupo de pesquisa que descreveu o efeito hormonal também descreveu o outro lado. Yakubu, Oladiji e Akanji publicaram em 2009 no periódico Human and Experimental Toxicology um estudo sobre o modo de toxicidade celular do extrato aquoso de Fadogia Agrestis em fígado e rim de ratos machos. Os animais receberam 18, 50 ou 100 miligramas por quilo de peso durante 28 dias.
Os autores observaram redução significativa das atividades de fosfatase alcalina, lactato desidrogenase e gama glutamil transferase nos dois órgãos, com aumento correspondente no soro, um padrão clássico de extravasamento enzimático por dano de membrana. O malondialdeído sérico, marcador de peroxidação lipídica, aumentou de forma significativa em todos os grupos tratados. A conclusão dos autores foi de comprometimento da integridade das membranas plasmáticas dos hepatócitos e dos néfrons, mesmo sem lesão visível de órgão nem mortalidade nos animais.
Some a isso o que a base de dados Examine registra: há um possível efeito citotóxico que se manifesta por volta de um mês de uso, que pode inclusive interferir na própria capacidade de elevar testosterona, e esse efeito pode não se limitar aos testículos. A conclusão de dose que eles apresentam é a mais honesta possível: não está claro se o consumo de Fadogia Agrestis é seguro em qualquer dose, portanto nenhuma dose pode ser recomendada.
Não é alarmismo. É a diferença entre dizer não sabemos e dizer é seguro. Quem vende repete a segunda frase sem ter os dados da primeira.
E O FÍGADO, NO CASO DO TONGKAT ALI?
O Tongkat Ali é bem mais estudado em humanos, e nos ensaios clínicos curtos os efeitos adversos foram descritos como incomuns, sem alteração de enzimas hepáticas. Ainda assim, a base LiverTox, do National Institutes of Health, classifica o Tongkat Ali com escore de probabilidade D, ou seja, causa possível mas rara de lesão hepática clinicamente aparente.
O caso que sustenta essa classificação é único e vale ser contado inteiro, porque ele mostra como se lê evidência. Um homem de 47 anos, fisiculturista, desenvolveu icterícia uma semana depois de iniciar um suplemento de Tongkat Ali, com bilirrubina chegando a 14,3 miligramas por decilitro e ALT a 875 unidades por litro, com melhora após a suspensão. Só que a própria LiverTox pondera que, em fisiculturistas, uma causa importante a considerar é o uso não declarado de esteroides anabolizantes, o que enfraquece a atribuição de causalidade ao suplemento. Um caso, com fator de confusão relevante, não fecha diagnóstico de hepatotoxicidade.

O ponto mais prático da LiverTox é outro, e vale para os dois ingredientes deste texto: não há padronização de pureza e concentração dos extratos, e a segurança de longo prazo e de doses mais altas simplesmente não foi avaliada em humanos. As doses tradicionais ficam entre 100 e 400 miligramas por dia, enquanto produtos vendidos online chegam a trazer de 1.000 a 1.600 miligramas por cápsula ou porção. Você está comprando uma dose que ninguém testou, de um extrato cuja concentração ninguém garante.
QUEM TREINA SÉRIO PRECISA DE UM CUIDADO A MAIS
Se você compete em qualquer esporte com controle antidoping, essa falta de padronização deixa de ser detalhe técnico e vira risco de carreira. Um produto sem certificação de terceira parte, sem garantia de pureza e sem controle de concentração é justamente o perfil de produto em que contaminação cruzada acontece. A responsabilidade pelo que aparece no exame é sempre do atleta, não do fabricante. Isso não é uma acusação contra essas plantas, é uma consequência direta do que a própria literatura reconhece sobre a ausência de padronização desses extratos.
E vale dizer o óbvio que o marketing esconde: testosterona baixa é diagnóstico médico. Cansaço, queda de libido e dificuldade de ganhar músculo têm dezenas de causas mais prováveis que hipogonadismo, entre elas sono ruim, déficit calórico prolongado, treino mal dosado, deficiência de ferro e problema de tireoide. Tratar isso com um pote comprado na internet é pular a única etapa que resolveria de verdade.
COMO APLICAR NA PRÁTICA
- Antes de qualquer suplemento hormonal, feche o básico: sono, ingestão calórica adequada, proteína suficiente, treino de força consistente e exames em dia. É aí que mora a maior parte dos casos de energia baixa e libido baixa.
- Se você suspeita de testosterona baixa, meça. Testosterona total, e quando indicado a fração livre, com avaliação médica. Não trate um palpite.
- Sobre o Fadogia Agrestis, a recomendação que a evidência sustenta hoje é não usar. Não existe estudo humano publicado, e existem sinais de toxicidade hepática, renal e testicular em animais com uso de 28 dias.
- Sobre o Tongkat Ali, se houver interesse, o cenário com melhor evidência é o de homem com testosterona comprovadamente baixa. As doses estudadas ficam na faixa de 100 a 600 miligramas por dia, e não nas doses infladas dos rótulos.
- Escolha extrato padronizado, com teor de marcador declarado e certificação de terceira parte. Sem isso, você não sabe o que está tomando.
- Se você compete, não use nada sem certificação antidoping. Nenhum ganho marginal compensa uma suspensão.
- Não espere hipertrofia. Nem a meta-análise favorável ao Tongkat Ali mediu ganho de massa muscular como desfecho principal.
Tongkat Ali e Fadogia Agrestis não são o mesmo produto e não merecem a mesma resposta. O primeiro tem meta-análise de ensaios randomizados mostrando aumento de testosterona total, com efeito mais claro em quem já está baixo, e com ressalvas honestas de viés de publicação, amostra pequena e dependência de um extrato específico. O segundo tem ratos, promessa e um histórico de toxicidade celular que ninguém colocou na frente do pote. Essa é a lógica do Método Overlife: primeiro o diagnóstico, depois a base que sustenta resultado, e só no fim aquilo que refina na margem. Suplemento não conserta rotina furada nem substitui exame. Se você está cansado, sem libido ou empacado no treino, o caminho não é escolher entre dois potes, é descobrir o que está realmente acontecendo. Comece pelo diagnóstico gratuito aqui do site.
Assinado por
NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA
Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.





