Suplementação · 8 de setembro de 2026 · 11 min de leitura
ASHWAGANDHA PARA QUEM TREINA: O QUE A CIÊNCIA REALMENTE DIZ SOBRE FORÇA, CORTISOL E RECUPERAÇÃO
Existe um ponto em que a popularidade de um suplemento ultrapassa a qualidade da evidência que o sustenta, e a ashwagandha vive exatamente nessa zona de tensão. O mercado global do produto deve superar 2,5 bilhões de dólares até 2031, e as prateleiras de qualquer loja de suplementos no Brasil tratam a planta como se fosse o elo perdido entre o treino e o resultado. A propaganda promete força, testosterona nas alturas, sono profundo e cortisol zerado. A ciência entrega algo mais modesto, mais matizado e, honestamente, ainda mais interessante do que qualquer manchete.
A Withania somnifera, nome científico da ashwagandha, é uma planta adaptógena de origem ayurvédica usada há séculos no subcontinente indiano. O que muda agora é que ela saiu dos livros de medicina tradicional e entrou em ensaios clínicos controlados, com randomização, duplo-cego e placebo. Isso permite separar o que funciona do que é marketing. Este artigo faz exatamente isso.
O QUE A ASHWAGANDHA É, DE ONDE VEM E O QUE TEM DENTRO
A atividade biológica da planta é atribuída principalmente aos withanolídeos, uma família de lactonas esteroidais exclusivas do gênero Withania. Esses compostos modulam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), reduzindo a resposta ao estresse, e parecem agir sobre vias inflamatórias e oxidativas. Estudos pré-clínicos também sugerem envolvimento em receptores GABAérgicos, o que explicaria parte do efeito sobre o sono. Contudo, como a revisão publicada em Nutrition and Metabolism em 2025 ressalta, a relação entre a concentração de withanolídeos e os efeitos clínicos ainda não está completamente estabelecida, outros compostos não identificados podem contribuir para os resultados observados.
No mercado existem diferentes extratos padronizados, como KSM-66 (extrato de raiz com pelo menos 5% de withanolídeos), Sensoril (extrato aquoso de raiz e folha) e Shoden (concentração mais alta de withanolídeos). A maioria dos ensaios clínicos relevantes usou KSM-66 ou Sensoril, e esse detalhe importa na hora de avaliar o que a evidência significa para um produto específico que você está comprando.
FORÇA MUSCULAR E COMPOSIÇÃO CORPORAL: A EVIDÊNCIA MAIS SÓLIDA
Se há uma área onde a ashwagandha tem ensaios clínicos controlados com resultados consistentes, é aqui. O estudo de Wankhede e colaboradores, publicado em 2015 no Journal of the International Society of Sports Nutrition, randomizou 57 homens jovens sem experiência em musculação para receber 300 mg de extrato de raiz duas vezes ao dia (600 mg/dia de KSM-66) ou placebo durante 8 semanas de treinamento resistido. O grupo da ashwagandha obteve um ganho de força no supino de 46 kg contra 26,4 kg do placebo (p=0,001), maior crescimento de massa muscular no braço e redução maior de gordura corporal. Os níveis de testosterona foram significativamente maiores no grupo que usou a erva, e os marcadores de dano muscular (creatina quinase) caíram mais.
O STAR Trial (Ziegenfuss et al., publicado na revista Nutrients em 2018) replicou resultados semelhantes com um extrato aquoso diferente, o Sensoril, em dose de 500 mg/dia por 12 semanas de treinamento resistido em homens recreacionalmente ativos. Houve melhora de força superior e inferior, composição corporal favorável e ligeira melhora nos marcadores de recuperação. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Nutrients em 2025, que analisou especificamente ensaios com treinamento resistido estruturado e seguiu as diretrizes PRISMA 2020, confirmou efeito positivo sobre força de 1RM e composição corporal, mas apontou que a maioria dos estudos incluídos tem amostras pequenas e períodos curtos.
É importante ser honesto sobre o tamanho e a qualidade dessa evidência. Estamos falando de estudos com dezenas de participantes, não centenas, a maioria em homens jovens sem experiência em musculação, o perfil que mais responde a qualquer intervenção. Os efeitos em pessoas já treinadas, em mulheres e em atletas de alto rendimento são menos estudados e os resultados tendem a ser menores.
CORTISOL, ESTRESSE E RECUPERAÇÃO: O MECANISMO CENTRAL
Aqui está o eixo mais bem documentado da ashwagandha: a modulação do cortisol. Vários ensaios clínicos documentaram reduções de 14% a 27% nos níveis de cortisol com suplementação de 300 a 600 mg/dia. O mecanismo proposto é a regulação do eixo HPA, o sistema que controla a resposta ao estresse. Quando o cortisol crônico está elevado, seja por treinamento intenso, sono insuficiente ou pressão psicológica, a síntese de testosterona fica comprometida, a recuperação desacelera e o risco de overtraining aumenta.
Um ensaio clínico randomizado duplo-cego publicado na revista Nutrients em janeiro de 2026 testou 600 mg/dia de extrato de raiz KSM-66 por 42 dias em 56 atletas de esportes coletivos (rugby, polo aquático e futebol) durante a pré-temporada, um período conhecido por aumentar o estresse hormonal. Os resultados mostraram estabilização dos biomarcadores de estresse, o cortisol salivar aumentou no grupo placebo mas permaneceu estável no grupo da ashwagandha, junto com melhora na percepção de recuperação e ganhos de força muscular. O estudo identificou benefícios diferentes por sexo: atletas do sexo feminino apresentaram melhora na recuperação e redução da resposta de cortisol, enquanto os atletas do sexo masculino exibiram maiores ganhos de potência nos membros inferiores. Os próprios autores ressaltam que são necessárias mais pesquisas para refinar o papel do suplemento em contextos esportivos.
Um estudo publicado no European Journal of Sport Science em 2025 investigou os efeitos de 600 mg/dia por 28 dias em atletas femininas profissionais, uma população sistematicamente sub-representada na literatura sobre ashwagandha. Os resultados indicaram melhora na percepção de recuperação e na força muscular, com os autores concluindo que quatro semanas de suplementação nessa dose são um período eficaz. Vale notar: os dados para mulheres ainda são preliminares e limitados.
VO2MAX E CAPACIDADE AERÓBICA: PROMISSOR, MAS COM RESSALVAS IMPORTANTES
Um ensaio clínico randomizado duplo-cego publicado no Journal of Ethnopharmacology em 2021 avaliou 50 adultos atléticos saudáveis que receberam 300 mg de extrato de raiz duas vezes ao dia por 8 semanas. O grupo da ashwagandha apresentou melhora estatisticamente significativa no VO2max comparado ao placebo (p=0,0074), além de escores de recuperação percebida significativamente melhores.
Uma meta-análise publicada na Nutrients em 2020 (Pérez-Gómez e colaboradores) analisou os estudos disponíveis sobre VO2max e encontrou uma diferença média de 3,00 mL/kg/min em favor da ashwagandha (IC 95%: 0,18 a 5,82; p=0,04). Parece positivo, mas a heterogeneidade entre os estudos foi alta (I²=84%) e a qualidade geral da evidência foi classificada como baixa pela escala GRADE. Isso significa que o efeito real pode ser maior ou menor do que o estimado, e que os dados ainda não permitem afirmações categóricas. Os próprios autores concluíram que mais ensaios de longa duração são necessários antes de confirmar o benefício aeróbico.
SONO: EFEITO REAL, MAS MECANISMO AINDA DEBATIDO
A revisão sistemática e meta-análise publicada na PLOS ONE em 2021 (Cheah e colaboradores), que integrou dados de 400 participantes, encontrou melhora significativa na qualidade geral do sono em adultos que usaram extrato de ashwagandha. O mecanismo ainda é alvo de debate: inicialmente, acreditava-se que os withanolídeos ativavam receptores GABAérgicos, mas estudos em animais mostraram que o composto responsável pelo sono pode ser o trietilenoglicol (TEG), presente no extrato aquoso, não os withanolídeos. A revisão de atletas e pessoas saudáveis publicada no MDPI em 2025 confirma que doses de pelo menos 600 mg/dia por pelo menos 8 semanas produzem benefício consistente sobre qualidade e quantidade de sono. Para quem treina intensamente, essa pode ser a contribuição mais prática da suplementação: melhorar o contexto em que a recuperação acontece.

TESTOSTERONA: O DADO QUE OS RÓTULOS DISTORCEM
As manchetes de "ashwagandha aumenta testosterona em 534%" são baseadas em estudos com homens inférteis com níveis basais muito abaixo do normal, não em atletas saudáveis. O que os ensaios em pessoas saudáveis mostram é bem diferente. Lopresti e colaboradores, em 2019, testaram o extrato Shoden em dose de 240 mg/dia por 16 semanas em homens mais velhos com sobrepeso e encontraram aumento de aproximadamente 14,7% na testosterona e 18% de DHEA-S em comparação ao placebo. O estudo de Wankhede (2015) encontrou aumento de cerca de 15% em homens jovens fazendo musculação com 600 mg/dia de KSM-66.
Esses números existem de fato, mas o mecanismo parece indireto. A redução de cortisol remove uma freada sobre o eixo HPG (hipotálamo-hipófise-gonadal), e isso permite que a produção de testosterona funcione de forma menos inibida. Em homens com testosterona já no topo da faixa normal e com estresse bem controlado, o efeito tende a ser menor. A meta-análise publicada na Frontiers in Pharmacology em 2026, que seguiu as diretrizes PRISMA e buscou dados em PubMed, Web of Science, Cochrane e Embase até fevereiro de 2026, confirmou benefício sobre a testosterona em análise de múltiplos ECRs, mas também destacou a necessidade de maior padronização metodológica entre os estudos.
O ALERTA DE SEGURANÇA QUE QUASE NINGUÉM MENCIONA
Os ensaios clínicos publicados relatam efeitos adversos leves, diarreia, dor gástrica, sonolência, em aproximadamente 9% dos participantes, com boa tolerabilidade geral. Mas existe um dado que precisa estar neste artigo com todas as letras: a base de dados LiverTox do NIH, atualizada em dezembro de 2024, registra 23 casos de lesão hepática clinicamente aparente associada à ashwagandha, com início típico de hepatite colestática após cerca de um mês de uso. A maioria dos casos se resolveu espontaneamente após a interrupção, mas houve relatos raros de falência hepática grave. Publicações de 2023 em Hepatology Communications e em Pharmaceuticals descreveram séries de casos de lesão hepática induzida pela planta em múltiplos países.
Isso não significa que a ashwagandha seja perigosa para todos, a incidência de lesão hepática é rara em relação ao volume de consumo. Mas significa que "natural" não é sinônimo de inofensivo. Pessoas com histórico de doença hepática ou que usam medicamentos que transitam pelas enzimas hepáticas CYP3A4 e CYP3A5 têm motivos concretos para conversar com um médico antes de usar. E qualquer aparecimento de icterícia, urina escura ou fadiga intensa durante o uso deve ser investigado imediatamente.
COMO USAR ASHWAGANDHA NA PRÁTICA: O QUE A EVIDÊNCIA SUGERE
Com base nos ensaios clínicos disponíveis, estas são as diretrizes que emergem da literatura:
- Dose: os estudos com resultados mais consistentes usaram 500 a 600 mg/dia de extrato padronizado de raiz (não pó bruto, não extrato de folha isolado). Doses divididas em duas tomadas de 300 mg tendem a aparecer com maior frequência nos protocolos positivos.
- Forma e padronização: prefira extratos com percentual declarado de withanolídeos (geralmente 5% para KSM-66). Produtos sem padronização têm concentração de princípios ativos imprevisível.
- Duração mínima: o efeito sobre cortisol e estresse pode aparecer em 4 semanas, mas os ganhos de força e composição corporal relevantes nos estudos ocorreram após 8 a 12 semanas de uso contínuo.
- Com ou sem treino resistido: os maiores ganhos de força foram observados quando a suplementação acompanhou um programa de musculação estruturado, não funcionou como substituto do estímulo de treinamento.
- Momento da tomada: não há protocolo rígido validado por evidência. Uma das doses costuma ser tomada à noite em vários estudos, possivelmente aproveitando o efeito sobre o sono.
- Ciclagem: os dados de segurança a longo prazo são limitados. Os ensaios mais longos duraram 16 semanas. A prática de fazer pausas (por exemplo, 8 a 12 semanas de uso seguidas de 4 semanas de pausa) é razoável do ponto de vista de precaução, embora não exista um protocolo definitivo validado clinicamente.
- Quem deve evitar ou agir com cautela: pessoas com doença hepática diagnosticada, usuários de medicamentos metabolizados pelo CYP3A4, gestantes e lactantes. Ashwagandha pode interagir com medicamentos imunossupressores, sedativos e drogas tireoidianas, nesse caso, avaliação médica individual é indispensável.
O QUE ESPERAR (E O QUE NÃO ESPERAR) DOS RESULTADOS
A ashwagandha não é um ergogênico direto como a creatina. Ela não aumenta fosfocreatina intramuscular, não tampona lactato e não entrega energia extra ao músculo em contração. O que ela faz, quando funciona, é agir sobre o ambiente hormonal e de estresse em que o treino acontece. Menos cortisol crônico significa melhor qualidade de sono, recuperação mais eficiente, menor catabolismo e, possivelmente, um ambiente mais favorável para síntese proteica. Em pessoas com cortisol cronicamente elevado por excesso de treino, privação de sono ou estresse psicológico acumulado, o impacto pode ser perceptível. Em pessoas com o estilo de vida já bem gerenciado, o efeito incremental tende a ser menor.
É também importante dizer que os estudos disponíveis têm limitações sérias: amostras pequenas, predominância de participantes do sexo masculino, períodos curtos, falta de dados em atletas altamente treinados e financiamento frequentemente originado de empresas produtoras de extratos padronizados. A revisão sistemática ampla publicada no MDPI em julho de 2025, que seguiu as diretrizes PRIOR para overviews de revisões, concluiu que a evidência ainda é fragmentada e às vezes inconsistente, ao mesmo tempo em que reconhece vantagens em capacidades físicas, sono e estresse relacionados à performance.
ASHWAGANDHA DENTRO DE UMA ESTRATÉGIA MAIOR
Nenhum suplemento existe no vácuo. A ashwagandha faz mais sentido como parte de uma abordagem que já tem treino bem estruturado, ingestão proteica adequada, sono priorizado e manejo de estresse em dia. Usar a planta para compensar privação crônica de sono ou treino desordenado é apostar no efeito errado. O que ela pode oferecer é uma camada a mais de suporte ao eixo HPA em momentos de carga elevada, pré-temporadas, períodos de acúmulo de treino, fases de maior pressão no trabalho combinadas com volume alto.
No Overlife Club, a suplementação é tratada como uma decisão que só faz sentido dentro de um contexto individualizado. A ashwagandha pode ser uma ferramenta útil para determinadas pessoas em determinados momentos, mas a indicação depende de como está o quadro completo: qualidade de sono, marcadores de estresse, fase de treinamento, histórico de saúde e o que mais está sendo usado. Um adaptógeno genérico para todo mundo é o oposto do que o acompanhamento estratégico representa.
Este artigo tem caráter educativo e não substitui avaliação individualizada por profissional de saúde habilitado. Antes de iniciar qualquer suplementação, especialmente em casos de uso de medicamentos, condições de saúde preexistentes ou sintomas em curso, consulte seu médico ou nutricionista.
Assinado por
NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA
Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.





