GLP-1 & Emagrecimento · 21 de setembro de 2026 · 10 min de leitura
RETATRUTIDA: O QUE JÁ SE SABE
Existe um número que parou o mundo da medicina metabólica: 28,3%. Essa foi a redução média de peso corporal alcançada na dose mais alta de retatrutida no ensaio clínico de Fase 3 chamado TRIUMPH-1, divulgado pela Eli Lilly em maio de 2026, com 80 semanas de acompanhamento. Para contextualizar: é uma perda comparável, em magnitude, ao que se observa em cirurgias bariátricas de banda gástrica. E mais de 45% dos participantes desse estudo perderam 30% ou mais do peso inicial, um limiar que historicamente só era alcançado com procedimentos cirúrgicos.
A retatrutida ainda não está aprovada pela FDA nem pela ANVISA. Não está disponível em farmácias, não existe prescrição legal fora de ensaios clínicos autorizados, e qualquer produto que circule com esse nome fora desse contexto é não regulamentado. Mas os dados que vêm saindo dos estudos justificam prestar atenção agora, antes da aprovação, porque eles mudam o modo de pensar sobre o tratamento farmacológico da obesidade. Este artigo organiza o que de fato se sabe, separa o que é evidência sólida do que ainda é hipótese, e explica o que isso tem a ver com o trabalho prático de quem acompanha pessoas nesse processo.
O QUE É A RETATRUTIDA E COMO ELA AGE
A retatrutida, também designada pelo código LY3437943, é uma molécula desenvolvida pela Eli Lilly que atua simultaneamente em três receptores hormonais: GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1), GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e glucagon. Por isso, ela é classificada como agonista triplo, diferenciando-se da semaglutida, que age apenas no receptor de GLP-1, e da tirzepatida, que age nos receptores de GLP-1 e GIP.
Cada receptor contribui com uma função metabólica distinta. O GLP-1 reduz o esvaziamento gástrico, estimula a secreção de insulina dependente de glicose e atua nos centros hipotalâmicos que regulam o apetite, criando sensação de saciedade. O GIP potencializa a liberação de insulina e tem efeitos sobre o tecido adiposo e a regulação energética. O glucagon, o elemento diferencial da retatrutida em relação à classe anterior, aumenta o gasto energético e estimula a oxidação de gordura no fígado, mecanismos que os agonistas simples ou duplos não acessam diretamente.
É essa combinação que leva os pesquisadores a atribuir à retatrutida um efeito bidirecional: ela reduz a ingestão calórica pelo lado da saciedade e, ao mesmo tempo, aumenta o gasto energético pelo lado do glucagon. Em modelos animais, esse componente de gasto aumentado foi documentado de forma consistente. Em humanos, a hipótese é biologicamente plausível e está sendo investigada formalmente em um ensaio de Fase 1 da própria Eli Lilly com 75 participantes, mas ainda não há dados publicados suficientes para quantificar a magnitude desse aumento de gasto em pessoas.
OS NÚMEROS DOS ENSAIOS CLÍNICOS, EM ORDEM CRONOLÓGICA
O primeiro dado que chamou atenção global veio do ensaio de Fase 2 publicado em 2023 no New England Journal of Medicine. Nesse estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido nos Estados Unidos com adultos com obesidade sem diabetes tipo 2, a dose de 12 mg de retatrutida produziu uma redução média de 24,2% do peso corporal em 48 semanas, comparada a 2,1% no grupo placebo. Todos os participantes que receberam 8 mg ou 12 mg perderam pelo menos 5% do peso, e a curva de perda ainda não havia atingido platô ao final das 48 semanas, sugerindo que resultados maiores seriam observados com mais tempo, algo confirmado posteriormente.
Em dezembro de 2025, a Eli Lilly divulgou os resultados positivos do TRIUMPH-4, um ensaio de Fase 3 com 68 semanas avaliando retatrutida em adultos com obesidade e osteoartrite de joelho. Na dose de 12 mg, a perda de peso foi de 28,7% em média, mais de 70 quilos por participante. Na dose de 9 mg, a perda foi de 26,4%. O grupo placebo perdeu 2,1%. Ambas as doses atingiram todos os desfechos primários e secundários, incluindo redução de dor e melhora de função física.
Em maio de 2026 vieram os resultados do TRIUMPH-1, o ensaio de Fase 3 principal para obesidade sem diabetes, com 80 semanas de duração. A dose de 12 mg produziu redução média de 28,3% do peso, o equivalente a uma perda média de 70,3 libras (cerca de 32 quilos) a partir de um peso basal médio de 248,5 libras. Mais de 45,3% dos participantes nessa dose perderam 30% ou mais do peso corporal. Todas as três doses testadas (4 mg, 9 mg e 12 mg) atingiram os desfechos primários e secundários do estudo. Uma revisão publicada no Annals of Internal Medicine, que comparou 12 agonistas de GLP-1 e coagonistas em 26 ensaios randomizados com 15.491 adultos sem diabetes, havia colocado a retatrutida no topo da lista de agentes investigacionais, projetando 24,2% de perda na dose de 12 mg, acima da tirzepatida (17,8%) e da semaglutida subcutânea (13,9%) nas doses máximas avaliadas. Os dados de Fase 3 confirmaram essa projeção e a superaram.
O QUE ACONTECE COM A COMPOSIÇÃO CORPORAL
Perda de peso expressiva levanta uma pergunta incontornável para qualquer profissional que trabalha com saúde e performance: quanto dessa perda é gordura e quanto é massa magra? A resposta para a retatrutida começa a ser respondida por um substudy de composição corporal publicado no The Lancet Diabetes and Endocrinology em junho de 2025, conduzido em 42 centros médicos nos Estados Unidos como parte do ensaio de Fase 2 em pessoas com diabetes tipo 2.
Dos 281 participantes do estudo principal, 103 completaram tanto a avaliação basal quanto a avaliação na semana 36 por densitometria (DXA), o padrão clínico para distinguir gordura de massa magra. Na dose de 8 mg, a gordura corporal total reduziu 26,1%. A conclusão dos autores foi que a proporção de perda de massa magra em relação ao peso total perdido foi similar à observada em outros tratamentos para obesidade. Em outras palavras: a retatrutida não parece piorar a relação gordura-músculo em comparação com intervenções existentes na mesma magnitude de resultado.
Mas há um ponto que precisa ser compreendido com precisão: "proporção similar" não significa "menor perda absoluta de massa magra". Como a retatrutida produz muito mais perda de peso total, uma proporção semelhante de perda de massa magra significa, em quilos, mais tecido magno perdido do que com semaglutida ou tirzepatida. Esse é um dado importante, não para desqualificar o medicamento, mas para entender por que o suporte nutricional e o treinamento de força continuam sendo variáveis determinantes, independentemente de qual fármaco está sendo usado. A questão também é metodológica: massa magra medida por DXA inclui músculo, água, órgãos e tecido conjuntivo. Perda de massa magra não é sinônimo de perda de músculo funcional. O que os ensaios ainda não respondem de forma definitiva é o impacto sobre força muscular, qualidade muscular e capacidade funcional a longo prazo.
EFEITOS ALÉM DA BALANÇA: FÍGADO, MARCADORES METABÓLICOS E RINS
O receptor de glucagon da retatrutida tem uma particularidade relevante do ponto de vista hepático: glucagon estimula diretamente a oxidação de gordura no fígado e reduz a lipogênese. Isso explica o dado de um ensaio de Fase 2 em doença hepática esteatótica metabólica, publicado na Nature Medicine em 2024, com 98 participantes e 24 semanas de duração: nas doses de 8 mg e 12 mg, a retatrutida produziu reduções relativas de 81,4% e 82,4% no conteúdo lipídico hepático, respectivamente, contra 0,3% no grupo placebo. Mais de 80% dos participantes nas doses mais altas alcançaram normalização completa da gordura hepática. Esse é um resultado preliminar, de Fase 2, com amostra pequena, e precisa ser replicado em estudos maiores, mas sinaliza um mecanismo adicional que vai além da perda de peso por si só.
Nos ensaios de Fase 2 gerais, a retatrutida também produziu reduções em circunferência da cintura, pressão arterial e marcadores glicêmicos. Relatos de participantes de ensaios clínicos e dados de subgrupos sugerem melhora significativa no perfil lipídico, redução de triglicérides e LDL, e melhora na função renal medida por TFG e cistatina C. Esses dados, no entanto, vêm majoritariamente de relatos de participantes individuais e de subconjuntos de estudos, não de endpoints primários predesenhados para avaliar esses desfechos. A evidência aqui é promissora, mas ainda classificada como preliminar ou exploratória.
O dado mais robusto sobre desfechos metabólicos a longo prazo virá do TRIUMPH-Outcomes, o maior ensaio do programa, que está recrutando pelo menos 10.000 participantes com IMC igual ou superior a 27 kg/m², doença cardiovascular aterosclerótica e ou doença renal crônica, com duração de 5 anos. Esse estudo foi desenhado especificamente para avaliar se a retatrutida reduz eventos cardiovasculares graves e previne piora da função renal. Os resultados ainda estão anos à frente.

SEGURANÇA E EFEITOS ADVERSOS: O QUE OS ENSAIOS DOCUMENTARAM
O perfil de efeitos adversos da retatrutida é consistente com a classe dos agonistas de GLP-1: predominantemente gastrointestinal, dose-dependente e mais intenso durante a fase de titulação. No ensaio de Fase 2 para obesidade, náuseas foram o efeito adverso mais comum nas doses mais altas, e o perfil geral de segurança foi descrito pelos autores como similar ao observado com GLP-1 e agonistas GIP-GLP-1.
No TRIUMPH-1, as taxas de descontinuação por eventos adversos foram de 4,1% na dose de 4 mg, 6,9% na dose de 9 mg e 11,3% na dose de 12 mg, contra 4,9% no placebo. Esses números estão dentro do esperado para a classe, embora a descontinuação na dose mais alta seja maior do que a observada com tirzepatida em doses comparáveis nos ensaios SURMOUNT. A ativação do receptor de glucagon pode produzir elevação transitória da frequência cardíaca durante a titulação, o que justifica monitoramento individualizado, especialmente em pacientes com histórico cardiovascular.
Um dado que emergiu nos ensaios em andamento e foi noticiado pela imprensa científica em 2025 é que alguns participantes perderam peso além do ponto considerado seguro ou desejado, chegando a buscar estratégias para frear a perda. Esse efeito não aparece na maioria dos participantes, mas documenta que a potência do medicamento pode, em certos contextos, tornar a dose padrão excessiva para um subgrupo de pessoas. Isso coloca em evidência a necessidade de titulação cuidadosa e acompanhamento contínuo.
O PROGRAMA DE ENSAIOS TRIUMPH E O QUE AINDA FALTA SABER
A Eli Lilly organizou o desenvolvimento clínico da retatrutida em múltiplos braços, reunidos sob o nome TRIUMPH. O programa inicial de registro incluiu quatro ensaios com mais de 5.800 participantes. Além do TRIUMPH-1 (obesidade sem diabetes) e do TRIUMPH-4 (obesidade com osteoartrite de joelho), estão em andamento o TRIUMPH-2 (obesidade com diabetes tipo 2), o TRIUMPH-3 (obesidade com doença cardiovascular estabelecida), o TRIUMPH-5 (comparação direta com tirzepatida, sem placebo, em pessoas com obesidade, inscrevendo participantes em 66 centros pelo mundo), o TRIUMPH-Outcomes (desfechos cardiovasculares e renais a longo prazo) e estudos em apneia obstrutiva do sono, doença renal crônica e controle glicêmico em diabéticos.
O TRIUMPH-5 é o ensaio mais aguardado por quem acompanha essa área de perto: pela primeira vez, retatrutida e tirzepatida serão testadas frente a frente na mesma população, no mesmo protocolo, sem grupo placebo. Os dados desse estudo vão responder à pergunta que os ensaios separados não conseguem responder: qual das duas produz mais resultado quando as condições são idênticas? Até esse dado estar disponível, qualquer comparação direta entre os dois medicamentos é uma inferência baseada em populações, protocolos e durações diferentes, não uma conclusão.
O que ainda está sem resposta robusta: o perfil de regain de peso após descontinuação da retatrutida (a hipótese, baseada no padrão da classe, é que ocorre); dados de segurança e eficácia em populações pediátricas e em idosos acima de 65 anos; impacto sobre força muscular funcional e capacidade aeróbica; e o perfil de longo prazo de efeitos adversos raros que só aparecem com uso crônico em milhões de pessoas, algo que nenhum ensaio clínico de Fase 3 consegue capturar integralmente.
O QUE ISSO MUDA NA PRÁTICA CLÍNICA HOJE
A retatrutida ainda não está no consultório. Mas os dados que vêm saindo do seu programa de ensaios já mudam o que se pensa sobre o teto de eficácia farmacológica no tratamento da obesidade. Durante anos, a referência era a cirurgia bariátrica para casos de alta magnitude. A perspectiva de ter um medicamento semanal injetável que, em 80 semanas, produz resultados superponíveis aos procedimentos cirúrgicos muda o cenário de possibilidades para pacientes que não têm indicação cirúrgica ou que não querem operar.
Do ponto de vista do profissional que acompanha pessoas em uso de medicamentos desta classe, a retatrutida coloca em evidência o mesmo conjunto de variáveis que importa com semaglutida ou tirzepatida, só que com maior urgência: proteína, força e gestão da composição corporal. Quando a perda de peso é maior e mais rápida, as consequências de negligenciar esses fatores também são proporcionalmente maiores. Um médico ou nutricionista que espera que o medicamento resolva sozinho vai entregar a uma pessoa um número bonito na balança mas uma composição corporal potencialmente comprometida.
O QUE FAZER ENQUANTO A RETATRUTIDA NÃO ESTÁ APROVADA
- Ingestão proteica adequada ao peso e ao ritmo de perda: manter a proporção de tecido magno exige que o substrato para síntese proteica esteja disponível, mesmo quando o apetite está suprimido.
- Treinamento de força regular: é a intervenção com evidência mais sólida para preservar massa muscular funcional durante qualquer processo de perda de peso significativa.
- Monitoramento de composição corporal, não só do peso: o número na balança não diz onde a perda está acontecendo; DXA ou bioimpedância com acompanhamento longitudinal entregam essa informação.
- Ajuste de dose com acompanhamento médico: a potência da retatrutida (e de outros medicamentos da classe) exige titulação criteriosa e reavaliação periódica, especialmente diante de sinais de perda excessiva ou de efeitos adversos gastrointestinais persistentes.
- Planejamento de continuidade: a descontinuação sem estratégia de manutenção resulta, como padrão da classe, em regain predominantemente de gordura, o que piora a composição corporal em relação ao ponto de partida.
A velocidade com que o campo farmacológico da obesidade está avançando é real. Em menos de uma década, saímos de intervenções que produziam 5 a 8% de perda de peso para ensaios documentando 28% a 30%. Isso não elimina a necessidade de suporte nutricional, estruturação do treino e acompanhamento contínuo, mas muda o contexto clínico dentro do qual esse trabalho acontece. Profissionais que entendem o mecanismo desses medicamentos e integram esse conhecimento ao plano individual do paciente estão em posição muito melhor do que os que tratam o fármaco como uma variável isolada.
No Método Overlife, o trabalho com pacientes que usam medicamentos de emagrecimento parte exatamente desse princípio: o fármaco reduz a barreira do déficit calórico, mas não substitui a construção de um padrão alimentar que sustente a composição corporal, não protege automaticamente a massa magra, e não resolve o retorno do apetite quando a dose cai ou o tratamento termina. A retatrutida, quando chegar, vai exigir o mesmo rigor, provavelmente em escala maior.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou nutricional individual. A retatrutida é um medicamento investigacional, não aprovado para uso clínico fora de ensaios clínicos autorizados. Qualquer decisão sobre o uso de medicamentos para obesidade deve ser tomada com um médico habilitado, com avaliação completa do histórico, das comorbidades e das condições individuais de cada pessoa.
Assinado por
NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA
Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.





