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Nutrição Esportiva · 4 de agosto de 2026 · 8 min de leitura

HIDRATAÇÃO E SÓDIO NO ESPORTE: QUANTO BEBER, QUANTO SAL REPOR E POR QUE ÁGUA DEMAIS ATRAPALHA

Quase todo mundo que treina já ouviu a mesma frase repetida mil vezes: beba mais água. É um conselho tão genérico que virou ruído. Ele não diz quanto, não diz quando e, principalmente, não diz o que mais precisa entrar junto com o líquido. O resultado aparece todo fim de semana em provas e treinos longos: gente que chega desidratada e culpa o preparo físico, e gente que bebe água pura o tempo inteiro, se sente pior a cada quilômetro e não entende o motivo. Hidratação não é uma questão de volume, é uma questão de concentração. E o eletrólito que decide essa conta tem nome: sódio.

O QUE A DESIDRATAÇÃO FAZ ANTES DE VOCÊ SENTIR SEDE

A sede é um alarme atrasado. Quando ela aparece de forma clara, o corpo em geral já perdeu entre 1 e 2 por cento do peso corporal em líquido. E é exatamente nessa faixa que o desempenho começa a cair de forma mensurável. A perda de água reduz o volume de plasma, o coração precisa bater mais vezes para entregar o mesmo sangue ao músculo, a frequência cardíaca sobe para um mesmo ritmo de esforço e a capacidade de dissipar calor diminui. Em ambiente quente, uma desidratação de 2 por cento do peso já é suficiente para prejudicar tanto a resistência quanto a concentração e o tempo de reação.

Vale um cuidado com a leitura desse número. Nem toda perda de peso durante o treino é perda de água pura, parte vem do glicogênio consumido e da própria oxidação de substratos. E existe uma discussão legítima na literatura sobre desidratação voluntária, ou seja, atletas de elite que terminam maratonas com 3 a 4 por cento de perda e mesmo assim performam bem. A leitura honesta é que 2 por cento não é uma linha de morte súbita, é o ponto a partir do qual a margem começa a ficar cara. Para o atleta amador, que não tem a mesma tolerância nem o mesmo controle de ritmo, essa margem importa muito.

VOCÊ NÃO SABE QUANTO SUA, E ISSO É O PROBLEMA

A taxa de suor varia mais entre duas pessoas do que quase qualquer outra variável da nutrição esportiva. A faixa comum vai de 0,5 a 2,0 litros por hora, e em calor intenso pode passar de 2,5 litros por hora em alguns atletas. Isso significa que a mesma garrafa de 500 mililitros pode ser exatamente o que uma pessoa precisa em uma hora de treino e menos de um quarto do que a outra perdeu no mesmo período. Não existe recomendação universal em mililitros por hora porque não existe suor universal.

A boa notícia é que medir isso é simples e não custa nada. O teste da taxa de suor funciona assim: pese-se sem roupa, ou com roupa mínima e seca, imediatamente antes do treino. Treine 60 minutos, anotando exatamente quanto líquido você ingeriu durante o período. Ao final, seque-se bem e pese-se de novo nas mesmas condições. A conta é direta: peso perdido em quilos, convertido para mililitros, somado ao volume que você bebeu, dividido pelo tempo em horas. Um atleta que perdeu 1 quilo em uma hora e bebeu 500 mililitros nesse período tem uma taxa de suor de aproximadamente 1,5 litro por hora. Repita o teste em condições diferentes, um dia frio e um dia quente, um treino leve e um intenso, porque a taxa muda com o ambiente e com a intensidade.

Balança digital branca ao lado de toalha de treino dobrada e garrafa esportiva sobre piso claro, representando o teste de taxa de suor
Pesar antes e depois transforma achismo em número.

SÓDIO: O ELETRÓLITO QUE REALMENTE DECIDE A CONTA

O suor não é água, é uma solução. E o principal soluto perdido é o sódio. A concentração de sódio no suor varia bastante entre indivíduos, algo em torno de 200 a 2000 miligramas por litro, com a maioria das pessoas ficando perto de 900 a 1000 miligramas por litro. Quem tem suor visivelmente salgado, deixa marca branca na roupa preta, sente ardência quando o suor entra no olho ou percebe crosta de sal na pele e no boné, provavelmente está na parte alta dessa faixa.

Junte as duas variáveis e o tamanho do problema fica claro. Um atleta com taxa de suor de 1,5 litro por hora e concentração de 1000 miligramas por litro perde 1500 miligramas de sódio em uma hora de treino. Em três horas de esforço, são 4,5 gramas de sódio, algo próximo de 11 gramas de sal de cozinha. Repor esse volume só com água pura significa diluir progressivamente o sódio do sangue, e é aí que a coisa desanda.

O sódio tem três funções que nenhum outro eletrólito substitui no contexto do esforço prolongado: ele mantém o volume de líquido dentro do compartimento extracelular, ele estimula a sede de forma adequada e ele carrega glicose e água através da parede intestinal pelo mesmo transportador que absorve carboidrato. Potássio, magnésio e cálcio aparecem no suor em quantidades muito menores e raramente são o fator limitante. Quando alguém fala em repositor de eletrólitos e o rótulo destaca magnésio em vez de sódio, o produto foi formulado para marketing, não para suor.

QUANTO BEBER ANTES, DURANTE E DEPOIS

Antes do treino, a orientação prática é ingerir algo em torno de 5 a 10 mililitros por quilo de peso nas 2 a 4 horas que antecedem o esforço, o que dá aproximadamente 350 a 700 mililitros para uma pessoa de 70 quilos. O objetivo não é encher o estômago na última hora, é chegar bem hidratado. O melhor indicador caseiro continua sendo a cor da urina: urina clara, cor de palha, sinaliza estado adequado, urina escura e concentrada sinaliza déficit. É um marcador grosseiro, e suplementos de vitaminas do complexo B alteram a cor, mas funciona como triagem diária.

Durante o esforço, a meta é limitar a perda a menos de 2 por cento do peso corporal, e não zerá-la. Beber além da taxa de suor não traz benefício e aumenta risco. Na prática, isso significa consumir entre 400 e 800 mililitros por hora para a maioria das pessoas em treinos longos, ajustando pelo seu próprio teste. Para esforços que passam de 60 a 90 minutos, ou em calor, a bebida precisa conter sódio, em uma faixa que costuma ficar entre 300 e 700 miligramas por litro para a maioria dos atletas, subindo para 1000 a 1500 miligramas por litro em quem sua muito e perde muito sal. Fracione em goles regulares, a cada 15 ou 20 minutos, em vez de volumes grandes de uma vez.

Três garrafas esportivas transparentes com níveis diferentes de líquido e pequenas pilhas de sal ao lado sobre bancada clara
A concentração da bebida importa tanto quanto o volume.

Depois do treino, a reposição precisa superar a perda, porque parte do que se bebe vira urina. A recomendação é ingerir de 1,25 a 1,5 litro para cada quilo perdido, ao longo das horas seguintes, e sempre acompanhado de sódio, seja no próprio líquido, seja na refeição. Um prato com sal normal, azeitona, queijo ou uma sopa resolve isso melhor do que qualquer cápsula. Água pura em grande volume logo após um treino intenso é o caminho mais rápido para urinar tudo o que entrou e continuar com déficit.

Garrafa esportiva ao lado de copo de água e prato pequeno com azeitonas e cubos de queijo, com tênis esportivo desfocado ao fundo
Depois do treino, o sódio pode vir da comida.

HIPONATREMIA: QUANDO ÁGUA DEMAIS VIRA O PROBLEMA

A hiponatremia associada ao exercício acontece quando o sódio do sangue cai abaixo de 135 milimoles por litro, e a causa principal é simples: ingestão de líquido acima da taxa de suor, especialmente de líquido pobre em sódio. Ela é mais comum do que parece em provas longas de corrida e triatlo, e afeta com mais frequência atletas mais lentos, que passam muito tempo em prova, param em todos os postos de hidratação e bebem por protocolo, não por necessidade.

O detalhe cruel é que os sintomas iniciais se parecem muito com os da desidratação: náusea, dor de cabeça, tontura, confusão, inchaço nas mãos e no rosto. A reação instintiva de quem se sente assim é beber mais água, o que piora exatamente o quadro. Ganhar peso ou terminar a prova com o mesmo peso da largada, junto com anéis e relógio apertados, é um sinal de alerta mais confiável do que qualquer sensação. Nesses casos, a conduta é interromper a ingestão de água pura, buscar líquido ou alimento com sódio e, em quadro de confusão mental ou vômito persistente, procurar atendimento médico imediato.

A regra que resolve os dois extremos é a mesma: beba de acordo com a sua taxa de suor medida e coloque sódio na conta. Nem beber por medo, nem beber por hábito.

COMO ISSO MUDA DE ESPORTE PARA ESPORTE

No CrossFit, o WOD isolado raramente gera perda suficiente para justificar bebida eletrolítica, e água resolve. O cenário muda no box quente e sem ventilação e, principalmente, em dia de competição, com várias baterias ao longo do dia. Aí a soma das perdas é grande e passa despercebida, porque cada esforço isolado parece curto. Nesse formato, bebida com sódio entre as baterias e uma refeição normalmente salgada no intervalo maior fazem mais diferença do que qualquer suplemento.

No HYROX, a prova costuma durar entre 60 e 90 minutos em ritmo alto, quase sempre em ginásio fechado, com muita gente e temperatura elevada. É um cenário clássico de alta taxa de suor com pouca percepção, porque o ar condicionado engana. Chegar bem hidratado e usar bebida com carboidrato e sódio nas transições costuma ser mais eficiente do que tentar corrigir o déficit depois.

No padel, o desafio é o formato de torneio: várias partidas no mesmo dia, calor e intervalos curtos. A reposição precisa acontecer entre os jogos e não apenas durante eles. Bebida com sódio nas partidas longas, mais líquido e alimento salgado nos intervalos, é a combinação que sustenta o rendimento no terceiro e no quarto jogo.

Na corrida, a régua é a distância e o clima. Até 10 quilômetros, água resolve na maioria dos cenários. Na meia maratona, começa a valer a pena colocar sódio na garrafa em dia quente. Na maratona e em provas mais longas, hidratação com sódio deixa de ser detalhe e vira parte central da estratégia, no mesmo nível do carboidrato, e precisa ser testada nos treinos longos, nunca estreada no dia da prova.

OS ERROS QUE MAIS APARECEM NO CONSULTÓRIO

O primeiro é tratar hidratação como volume, sem olhar a composição do que se bebe. O segundo é usar sede como único guia em treinos longos, quando ela já chega atrasada. O terceiro é confundir cãibra com falta de eletrólito e sair tomando cápsula de sal: a evidência atual aponta muito mais para fadiga neuromuscular e ritmo mal dosado do que para desequilíbrio mineral na maioria dos casos. O quarto é escolher repositor pelo sabor ou pelo rótulo bonito, sem olhar quantos miligramas de sódio existem por porção. E o quinto, o mais comum de todos, é nunca ter feito o teste de pesagem antes e depois do treino, o que faz toda a estratégia virar chute.

COMO APLICAR NA PRÁTICA

  • Meça sua taxa de suor pesando-se antes e depois de um treino de 60 minutos, e anote quanto bebeu no período.
  • Repita o teste em pelo menos duas condições diferentes, um dia frio e um dia quente, porque a taxa muda.
  • Chegue bem hidratado: 5 a 10 mililitros por quilo de peso nas 2 a 4 horas antes do esforço.
  • Use a cor da urina como triagem diária, mirando um tom claro de palha.
  • Durante o esforço, mire perder menos de 2 por cento do peso, sem tentar zerar a perda.
  • Acima de 60 a 90 minutos, ou em calor, coloque sódio na bebida, entre 300 e 700 miligramas por litro, mais se o seu suor for salgado.
  • Fracione em goles a cada 15 ou 20 minutos em vez de volumes grandes de uma vez.
  • Depois do treino, reponha 1,25 a 1,5 litro por quilo perdido, sempre acompanhado de sódio ou de comida salgada.
  • Nunca ganhe peso durante uma prova longa: isso é sinal de ingestão excessiva, não de bom preparo.
  • Teste tudo nos treinos, com o mesmo produto e a mesma diluição que você pretende usar na competição.

Hidratação é provavelmente a variável mais barata e mais negligenciada da nutrição esportiva. Não exige suplemento caro, não depende de genética e pode ser ajustada com uma balança e um caderno. O que ela exige é o que quase ninguém faz: medir em vez de supor. É essa a lógica do Método Overlife, primeiro a base organizada, depois a medição individual, e só então o ajuste fino do protocolo ao seu esporte, ao seu clima e ao seu corpo. Se você quer parar de improvisar a garrafa e começar a trabalhar com número, comece pelo diagnóstico gratuito aqui do site.

Assinado por

NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA

Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.

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