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Nutrição Esportiva · 3 de agosto de 2026 · 8 min de leitura

CARBOIDRATO DURANTE O TREINO: QUANTOS GRAMAS POR HORA E COMO TREINAR O INTESTINO

Existe um momento específico em que a perna deixa de responder ao que a cabeça manda. Não é falta de treino e não é falta de vontade, é falta de combustível circulando. Uma pessoa treinada armazena entre 400 e 500 gramas de carboidrato na forma de glicogênio muscular e hepático, o suficiente para sustentar algo em torno de 90 a 120 minutos de esforço realmente intenso. Passado esse ponto, quem não colocou energia para dentro durante o próprio esforço segue competindo com o tanque na reserva. E a parte que quase ninguém organiza é exatamente essa: quanto comer enquanto treina, em que forma e a partir de que momento.

O QUE ACONTECE QUANDO O COMBUSTÍVEL ACABA

A fadiga que aparece no fim de uma prova longa tem duas origens que se somam. A primeira é periférica: o glicogênio do músculo esvazia e a capacidade de produzir força cai. A segunda é central: a glicemia começa a baixar e o cérebro, que depende quase exclusivamente de glicose, reduz o recrutamento muscular como forma de proteção. É por isso que a sensação clássica da chamada parede não é só de perna pesada, é também de cabeça lenta, visão embaçada e decisão ruim. O carboidrato ingerido durante o esforço age nas duas frentes: mantém a glicose do sangue estável e poupa parte do estoque interno para os minutos finais.

Vale registrar um detalhe curioso. Em esforços curtos, de até uma hora, parte do benefício do carboidrato acontece antes mesmo de ele ser digerido. Existem receptores na cavidade oral que sinalizam a chegada de energia ao cérebro e reduzem a percepção de esforço em poucos segundos. Por isso o simples bochecho com bebida carboidratada melhora desempenho em provas curtas, mesmo sem engolir. Para tudo que passa de uma hora, porém, bochecho não resolve, é preciso ingerir de verdade.

A PRIMEIRA CONTA: GRAMAS POR HORA, NÃO GRAMAS POR TREINO

O erro mais comum é pensar em quantidade total. A conta correta é por hora de esforço, porque o limite não está no apetite, está na velocidade com que o intestino consegue absorver. As diretrizes de nutrição esportiva organizam a recomendação por duração. Até 45 minutos, não é necessário carboidrato durante o treino, o estoque dá conta. Entre 45 e 75 minutos, pequenas quantidades ou o bochecho já ajudam. Entre 1 e 2 horas, a faixa útil fica entre 30 e 60 gramas por hora. Entre 2 e 3 horas, sobe para 60 a 90 gramas por hora. Acima disso, em provas de longa duração, chega-se ao teto prático de 90 gramas por hora para a maioria dos atletas.

Traduzindo para o mundo real: um gel comum entrega entre 20 e 30 gramas, um sachê de bebida esportiva preparado costuma ficar entre 30 e 40 gramas, uma banana média tem cerca de 25 gramas e um tablete de goma energética gira em torno de 20 a 25 gramas. Uma maratona de quatro horas com 60 gramas por hora significa cerca de 240 gramas de carboidrato distribuídos ao longo da prova, o equivalente a nove ou dez géis. Quase ninguém faz essa conta antes da largada, e é aí que a estratégia desmonta no quilômetro 30.

Sachês de gel energético sem rótulo alinhados ao lado de uma banana e de um sachê aberto de pó para bebida esportiva sobre bancada clara
A conta só fecha quando você sabe quanto cada item entrega.

POR QUE GLICOSE E FRUTOSE JUNTAS ELEVAM O TETO DE ABSORÇÃO

Aqui está o conceito que mudou a nutrição esportiva de endurance nos últimos vinte anos. A glicose atravessa a parede intestinal por um transportador específico chamado SGLT1, e esse transportador satura em torno de 60 gramas por hora. Colocar mais glicose para dentro depois disso não aumenta a energia disponível, apenas deixa carboidrato parado no intestino puxando água, o que produz exatamente o inchaço, a cólica e a diarreia que tanta gente associa a gel.

A frutose, por outro lado, usa um transportador diferente, o GLUT5. Combinar as duas fontes na mesma bebida ou no mesmo gel abre uma segunda via de entrada e eleva o teto de absorção para perto de 90 gramas por hora. As proporções mais estudadas ficam entre 2 partes de glicose para 1 de frutose e a proporção 1 para 0,8, que aparece como a mais eficiente nos trabalhos mais recentes. Na prática, isso significa ler o rótulo do produto e procurar maltodextrina somada a frutose, e não apenas maltodextrina isolada. É uma diferença de formulação que muda por completo o quanto você tolera.

90 OU 120 GRAMAS POR HORA: ONDE A CIÊNCIA REALMENTE ESTÁ

Nos últimos anos virou moda no ciclismo e no triatlo de alto nível falar em 120 gramas de carboidrato por hora, e o marketing dos suplementos abraçou o número com entusiasmo. A evidência é mais contida do que a propaganda. O trabalho de Podlogar e colaboradores comparou 90 e 120 gramas por hora em três horas de pedal e encontrou mais oxidação do carboidrato ingerido na dose alta, mas sem redução adicional no consumo do estoque interno, que é justamente o objetivo da estratégia. O estudo de Hearris mostrou que a dose de 120 gramas foi bem tolerada, porém com eficiência de oxidação em torno de 75 por cento, contra cerca de 86 por cento na dose de 90 gramas. Ou seja, uma parte maior do que foi ingerido simplesmente não virou energia.

Há ainda os achados de King e colaboradores, que em doses acima de 100 gramas por hora observaram maior depleção de glicogênio muscular e prejuízo no desempenho subsequente. A leitura honesta é esta: 90 gramas por hora continua sendo o teto prático para a imensa maioria das pessoas, incluindo atletas amadores muito bem treinados. Doses acima disso fazem sentido em um universo restrito de provas ultralongas, com atleta profissional, produto formulado para isso e um intestino que passou meses sendo preparado. Para todo o resto, mais carboidrato por hora não é mais performance, é mais desconforto.

O INTESTINO TAMBÉM TREINA

Essa é a parte que quase ninguém executa. Entre 30 e 90 por cento dos atletas de endurance relatam algum sintoma gastrointestinal em competição, e a causa raiz costuma ser simples: a pessoa treinou a perna durante seis meses e nunca treinou o intestino. Durante o esforço, o fluxo de sangue é desviado do trato digestivo para o músculo, a motilidade muda e a capacidade de absorção cai. Se o primeiro contato do seu intestino com 60 gramas de carboidrato em movimento acontece no dia da prova, o resultado é previsível.

A boa notícia é que essa capacidade é adaptável. A exposição repetida ao carboidrato durante o exercício aumenta a expressão dos transportadores intestinais, especialmente o SGLT1, e melhora a tolerância. Uma revisão sistemática sobre o tema mostrou redução consistente do desconforto e da má absorção, ainda que sem alteração relevante na velocidade de esvaziamento gástrico. O protocolo é direto: comece com 30 gramas por hora nos treinos longos, aumente cerca de 10 a 15 gramas por hora a cada semana e chegue à dose alvo com pelo menos quatro a seis semanas de antecedência da prova. Use exatamente o mesmo produto, na mesma diluição e no mesmo intervalo que você pretende usar no dia. Nada novo em dia de competição, nunca.

Três copos medidores transparentes lado a lado com quantidades crescentes de pó branco para bebida esportiva e uma garrafa esportiva ao fundo
A dose sobe aos poucos, semana após semana, nunca de uma vez.

COMO ISSO MUDA DE ESPORTE PARA ESPORTE

No CrossFit, o WOD isolado quase nunca justifica carboidrato durante o esforço, porque raramente passa de vinte minutos. O cenário muda em dia de competição, com três a cinco baterias distribuídas ao longo do dia: aí a estratégia é repor entre 30 e 60 gramas por hora nos intervalos, preferindo forma líquida e de digestão rápida, para chegar à última bateria com estoque e não com fé.

No HYROX, a prova costuma durar entre 60 e 90 minutos em ritmo alto e contínuo, o que coloca o atleta exatamente na faixa em que 30 a 60 gramas por hora fazem diferença. Como parar não é uma opção confortável, o mais funcional é uma bebida carboidratada consumida em pequenos goles nas transições, ou um gel único perto da metade da prova, sempre acompanhado de água.

No padel, o desafio raramente é a duração de um jogo isolado e quase sempre é o formato de torneio, com várias partidas no mesmo dia e calor associado. A combinação que funciona é bebida com carboidrato e sódio durante as partidas longas, na faixa de 30 a 60 gramas por hora, mais uma reposição sólida e leve entre os jogos. Fruta e um carboidrato de fácil digestão resolvem melhor do que qualquer refeição completa entre baterias.

Na corrida, a régua é a distância. Até 10 km não é necessário nada além de água. Na meia maratona, algo em torno de 30 gramas por hora já sustenta melhor o ritmo final. Na maratona, a faixa de 60 a 90 gramas por hora, fracionada a cada 20 ou 25 minutos, é o que separa quem administra a segunda metade de quem apenas sobrevive a ela. Fracionar é parte da técnica: três doses menores por hora são muito mais toleráveis do que uma dose grande de uma vez.

Cinto de hidratação com géis encaixados ao lado de um par de tênis de corrida e uma garrafa esportiva sobre bancada clara
O que funciona no treino é o que vai para o dia da prova.

OS ERROS QUE MAIS APARECEM NO CONSULTÓRIO

O primeiro é estrear a estratégia na prova. O segundo é tomar gel sem água, o que aumenta a concentração no intestino e provoca justamente o mal estar que a pessoa queria evitar. O terceiro é confundir carboidrato com eletrólito: pastilha de sal não fornece energia e gel não repõe sódio de forma adequada, são funções diferentes e ambas precisam de planejamento próprio. O quarto é ignorar o rótulo e usar por meses um produto só de maltodextrina, esbarrando no teto de 60 gramas por hora sem entender por que a estratégia não escala. E o quinto, talvez o mais caro, é treinar sempre em jejum ou sem reposição e esperar que o intestino se comporte bem justamente no dia em que tudo importa.

COMO APLICAR NA PRÁTICA

  • Defina a dose por hora de esforço, não por treino inteiro, e comece pela extremidade mais baixa da faixa.
  • Até 45 minutos, água resolve. Entre 45 e 75 minutos, pequenas doses ou bochecho já ajudam.
  • Entre 1 e 2 horas, mire 30 a 60 gramas por hora. Acima de 2 horas, 60 a 90 gramas por hora.
  • Escolha produtos que combinem glicose ou maltodextrina com frutose, e confira isso no rótulo.
  • Fracione: três tomadas menores por hora são mais toleráveis do que uma dose única grande.
  • Tome sempre com água, principalmente géis concentrados, para não puxar líquido para o intestino.
  • Trate carboidrato e sódio como estratégias separadas, cada um com sua própria conta.
  • Treine o intestino por quatro a seis semanas antes da prova, subindo a dose de forma progressiva.
  • Use no dia da competição exatamente o mesmo produto, a mesma diluição e o mesmo intervalo testados no treino.

Carboidrato durante o esforço é uma das poucas estratégias da nutrição esportiva com efeito direto, mensurável e imediato sobre o resultado. Só que ela não funciona como truque de véspera, funciona como um sistema construído ao longo da preparação, testado semana após semana e ajustado à sua tolerância individual e ao seu esporte. É essa a lógica do Método Overlife: primeiro a base alimentar organizada, depois a periodização do carboidrato ao redor do treino, e só então o ajuste fino do que entra durante o esforço. Se você quer parar de improvisar no meio da prova e chegar ao dia com um plano que já foi testado, comece pelo diagnóstico gratuito aqui do site.

Assinado por

NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA

Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.

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