Hormônios & Metabolismo · 16 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
REPOSIÇÃO DE TESTOSTERONA EM MULHERES: O QUE A CIÊNCIA SUSTENTA E O QUE VIROU MODISMO
Em 7 de agosto de 2026 a Anvisa publicou um comunicado com um título que diz muito sobre o momento: "Reposição de testosterona NÃO é obrigatória para mulheres". Uma agência reguladora só precisa dizer uma coisa dessas quando o contrário virou senso comum.
E virou. Testosterona deixou de ser assunto de endocrinologista e virou promessa de rede social: mais massa magra, mais disposição, emagrecimento mais fácil, treino rendendo como antes. Vou direto ao ponto, porque esse tema não comporta rodeio: existe uma indicação com respaldo científico, e ela é bem específica. Todo o resto não tem sustentação nos ensaios clínicos disponíveis.
A ÚNICA INDICAÇÃO COM RESPALDO
Em 2019, onze sociedades científicas, entre elas a Endocrine Society e a International Menopause Society, publicaram o Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women, construído a partir da revisão sistemática com meta-análise de Islam e colaboradores, publicada na Lancet Diabetes and Endocrinology.
A conclusão cabe em uma frase restritiva: a única indicação baseada em evidência é o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa, depois de avaliação clínica que exclua outras causas. Uma revisão Cochrane com 35 ensaios e 4.768 participantes aponta na mesma direção, com melhora da função sexual e do número de eventos sexuais satisfatórios.
O QUE A EVIDÊNCIA NÃO SUSTENTA
Aqui está a parte que o marketing não conta. O consenso avaliou justamente os desfechos usados para vender testosterona feminina, e o resultado foi negativo em todos. Sem efeito sobre densidade mineral óssea. Sem melhora significativa de massa magra ou força. Sem efeito sobre humor deprimido. Sem efeito sobre bem-estar geral. Evidência insuficiente para cognição.
O comunicado da Endocrine Society resumiu assim: a evidência disponível não sustenta o uso de testosterona para nenhum outro sintoma ou condição médica. Não é que a evidência seja fraca. É que ela foi buscada e não foi encontrada.

O PROBLEMA ESPECÍFICO DOS IMPLANTES
O consenso recomenda explicitamente contra pellets e injeções, por razão farmacológica. A diretriz da ISSWSH, de 2021, explica: implantes e injeções produzem picos suprafisiológicos seguidos de quedas rápidas, e esse padrão em montanha russa traz os sintomas de volta na parte baixa da curva, empurrando para doses cada vez maiores.
A mesma diretriz coloca o alvo em outro lugar: atingir a faixa fisiológica de uma mulher na pré-menopausa, com aproximadamente um décimo da dose usada em homens. Um décimo. Essa ordem de grandeza é incompatível com a lógica de implante que promete mudar composição corporal.
O QUE APARECE NA PRÁTICA
O alerta da Anvisa mostra o outro lado. As notificações de eventos adversos com anabolizantes aumentaram nos últimos anos, com pico em 2024, e testosterona junto com somatropina responde por mais de 90 por cento delas entre os medicamentos de controle especial. Os efeitos citados incluem acne, queda expressiva de cabelo, alterações hepáticas, alterações de gordura no sangue e problemas cardiovasculares.
Um ponto que costuma escapar: não existe no Brasil formulação de testosterona registrada pela Anvisa com indicação para mulheres. Todo uso feminino é off-label ou manipulado. E se você compete, some mais um item: a testosterona está na seção S1 da lista da Agência Mundial Antidopagem de 2026, proibida em todos os momentos, com prescrição médica ou sem.
MAS MEU EXAME DEU BAIXA
O consenso é explícito: não existe um nível de testosterona que sirva para diagnosticar deficiência androgênica em mulheres. Não há ponto de corte validado. E como os níveis caem naturalmente com a idade, um número abaixo da referência de mulher jovem, em uma mulher de 50 anos, não é diagnóstico de nada. É a queixa que orienta a conduta, não o exame.
O QUE REALMENTE CONSTRÓI MÚSCULO E OSSO
Para massa e força, o que funciona é treino de força com carga progressiva mais proteína adequada. A meta-análise de Morton e colaboradores, publicada no British Journal of Sports Medicine em 2018, reuniu 49 ensaios randomizados com 1.863 participantes e identificou ponto de inflexão em torno de 1,62 grama de proteína por quilo por dia.
Para osso, uma revisão sistemática publicada no Journal of Orthopaedic Surgery and Research em 2025, com 17 ensaios e 690 participantes, encontrou melhora significativa da densidade mineral óssea com treino resistido, com melhores resultados em intensidade alta e programas de 48 semanas ou mais.
Compare os dois conjuntos. Testosterona: sem efeito sobre osso, massa e força. Treino de força com proteína adequada: efeito demonstrado nos dois, em dezenas de ensaios randomizados.
COMO APLICAR NA PRÁTICA
- Queixa de desejo sexual reduzido na pós-menopausa, causando angústia, é o cenário em que a conversa sobre testosterona faz sentido. Leve para uma médica com essas palavras.
- Queixa de massa magra, disposição ou emagrecimento não sustenta testosterona. Isso está escrito no consenso global.
- Não dose testosterona sem queixa clínica que justifique. Número fora da referência de mulher jovem, em mulher madura, não é diagnóstico.
- Treino de força com carga progressiva três vezes por semana, com intensidade real, é o que tem evidência para músculo e osso.
- Ajuste a proteína para algo em torno de 1,6 grama por quilo por dia, distribuída ao longo do dia.
- Antes de atribuir o cansaço ao hormônio, investigue ferritina, vitamina D, tireoide, sono e ingestão energética.
O que me incomoda não é a testosterona. É o padrão: um hormônio real, com indicação real e estreita, transformado em solução genérica para queixas que quase sempre têm outra origem. O caminho com evidência é menos glamouroso e mais trabalhoso, e é exatamente essa a lógica do Método Overlife, tratar a causa e não o rótulo. Se você quer entender de onde vem o seu cansaço, comece pelo diagnóstico gratuito aqui do site.
Uma nota que precisa estar escrita com todas as letras: prescrição, dose e indicação de qualquer terapia hormonal são decisão médica. Este texto trata de alimentação, treino e leitura de evidência, que é o meu campo como nutricionista.
Assinado por
NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA
Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.





