← Voltar ao blog

Maratona · 19 de agosto de 2026 · 8 min de leitura

OXIDAÇÃO DUPLA DE CARBOIDRATOS NA MARATONA: POR QUE MISTURAR GLICOSE E FRUTOSE ENTREGA MAIS ENERGIA DO QUE DOBRAR A DOSE DE MALTODEXTRINA

A maioria dos maratonistas sabe que precisa de carboidrato durante a prova. Poucos sabem que, acima de uma certa dose, continuar tomando gel de maltodextrina pura deixa de aumentar o combustível disponível e só aumenta o risco de crise gastrointestinal. O limite não é a vontade, nem a concentração do gel. É a biologia do intestino delgado, que funciona com transportadores específicos, cada um saturável, cada um com capacidade máxima por hora. Entender isso muda completamente a estratégia de abastecimento, especialmente para quem compete entre 3h e 5h de prova.

O GARGALO QUE A MAIORIA IGNORA

Carboidrato não entra na corrente sanguínea por difusão livre. Ele depende de proteínas transportadoras especializadas na parede intestinal. A glicose, e a maltodextrina que se converte em glicose logo após a digestão, usa principalmente o transportador SGLT1. O problema é que esse transportador tem capacidade limitada. Independente de quanto gel você ingere, a taxa máxima de oxidação de glicose exógena fica em torno de 60g por hora. Acima disso, o excesso permanece no intestino, atrai água por osmose e cria a receita clássica para inchaço, cólica e aquela corrida desesperada até o banheiro químico no quilômetro 30.

Isso ficou evidente em estudos de fisiologia do exercício que compararam diferentes doses de carboidrato de fonte única em atletas de endurance. Dobrar a dose de maltodextrina de 60g para 90g por hora não dobrava a oxidação, mas aumentava consistentemente o desconforto gastrointestinal. É um dado simples, mas que inverte toda uma lógica de "quanto mais, melhor" que ainda circula em grupos de corrida.

A SOLUÇÃO ESTÁ NOS TRANSPORTADORES DIFERENTES

A frutose usa um transportador diferente: o GLUT5. Como ele é independente do SGLT1, a combinação de glicose e frutose em uma única estratégia de abastecimento permite saturar os dois transportadores ao mesmo tempo, em paralelo. O resultado prático é que a taxa de oxidação combinada pode chegar a aproximadamente 90g de carboidrato por hora, com menos desconforto gastrointestinal do que 90g de glicose pura, porque nenhum dos dois transportadores fica sobrecarregado sozinho.

A proporção estudada com melhor resposta de oxidação e menor perturbação intestinal é de 2 partes de glicose ou maltodextrina para 1 parte de frutose, o que ficou conhecido como a razão 2:1. Géis e bebidas que usam essa combinação existem no mercado hoje exatamente porque essa pesquisa migrou da fisiologia para a indústria de nutrição esportiva. Se você olhar o rótulo e encontrar sacarose como fonte de carboidrato, também está no caminho certo: a sacarose se divide em glicose e frutose durante a digestão, entregando a mistura naturalmente.

QUANDO ISSO IMPORTA DE VERDADE

Para uma maratona completada em menos de 2h15, a diferença entre 60g/h e 90g/h de carboidrato tem impacto menor. As reservas de glicogênio muscular e hepático, quando bem carregadas na fase de tapering e nos dias anteriores, conseguem sustentar o esforço sem depender tanto do carboidrato exógeno. O cenário muda radicalmente para atletas que correm entre 2h30 e 5h. Nessa janela, o glicogênio vai se esgotando de forma progressiva, a fração de carboidrato vindo de fora no combustível total cresce, e a capacidade de absorver mais por hora começa a fazer diferença mensurável tanto em performance quanto em como o atleta chega nos últimos 10 quilômetros.

Para o corredor popular que completa uma maratona entre 3h30 e 4h30, essa é exatamente a situação. Não é treino de elite. É a realidade de quem treinou meses para não travar no quilômetro 35 e vê o ritmo desmoronar por falta de combustível disponível, não por falta de condicionamento.

Garrafa de bebida esportiva transparente com líquido colorido e marca de dedos, ao lado de um gel energético aberto com conteúdo parcialmente saído, sobre uma toalha úmida de treino jogada no chão
Treinar o intestino com géis e bebidas nas mesmas doses da prova é parte do protocolo, não detalhe.

O PROBLEMA DO TREINAMENTO INTESTINAL

Mesmo com a estratégia de 2:1 no papel, existe um detalhe que a maioria ignora: o intestino precisa ser treinado para absorver volume alto de carboidrato em movimento. Chegar na prova e tentar absorver 80g ou 90g de carboidrato por hora sem jamais ter feito isso em treino é uma aposta arriscada. A mucosa intestinal tem plasticidade, e a exposição repetida a doses maiores durante os longões aumenta a expressão dos próprios transportadores, além de ensinar o sistema nervoso entérico a tolerar melhor o fluxo de nutrientes durante o esforço.

Isso significa que a estratégia de abastecimento da prova precisa ser praticada, testada e ajustada nos treinos longos, e não apenas lida em uma planilha na semana da maratona. Essa parte do processo é tão importante quanto o volume de quilômetros na preparação.

COMO APLICAR A OXIDAÇÃO DUPLA NA SUA MARATONA

  • Verifique o rótulo dos seus géis e bebidas: procure frutose, sacarose ou a indicação 2:1 na composição. Maltodextrina ou glicose como única fonte limita a absorção a cerca de 60g por hora, independente de quanto você ingere.
  • Calcule sua janela de prova: se você termina em menos de 2h15, o impacto da estratégia é menor. Se você corre entre 2h30 e 5h, o ganho de absorção adicional é relevante e pode mudar como você chega no final.
  • Comece a ingestão de carboidrato entre 30 e 45 minutos de prova: não espere sentir a fadiga instalada para iniciar o abastecimento. Quando o sinal de queda de energia chega, o atraso metabólico já comprometeu o rendimento.
  • Pratique a dose alvo nos treinos longos acima de 1h45: use os mesmos géis, a mesma frequência e o mesmo volume de líquido que planeja usar na prova. Treinar o intestino é parte do protocolo.
  • Aumente a dose gradualmente ao longo do ciclo de preparação: comece com doses menores nos primeiros longões e progrida até a dose alvo nas semanas finais. O intestino se adapta, mas precisa de estímulo progressivo.
  • Não estreie produto novo no dia da prova: se treinou com gel de maltodextrina pura, não mude para combinação 2:1 na largada. O risco gastrointestinal é real e não vale a aposta.
  • Hidrate adequadamente junto com o carboidrato: soluções muito concentradas sem líquido suficiente retardam o esvaziamento gástrico e comprometem a absorção, mesmo com a proporção de transportadores correta.

O PAPEL DO SÓDIO NA ABSORÇÃO DE GLICOSE

Um ponto que aparece em pesquisas mais recentes e que vale atenção: o co-transporte de sódio pelo SGLT1 significa que o sódio na bebida não funciona apenas como reposição de eletrólito. Ele participa ativamente do mecanismo de absorção de glicose. Por isso, a estratégia de combinar carboidrato com eletrólitos durante a maratona tem dupla função: repõe o que o suor remove e aumenta a eficiência da captação intestinal de glicose. É mais uma razão para não correr uma prova longa com água pura e géis separados, sem integração entre as duas fontes.

Já a proteína não tem papel relevante no abastecimento durante a corrida em si. Sua função é pós-esforço, na recuperação muscular e reposição de glicogênio hepático. Incluir proteína nos géis de prova costuma aumentar o desconforto gástrico sem benefício claro de performance durante o esforço.

MAIS DO QUE PROTOCOLO, É UMA ESTRATÉGIA INDIVIDUAL

A ciência dos transportadores intestinais é consolidada e aplicável. Mas existe uma distância considerável entre conhecer a teoria e conseguir executar a estratégia de forma funcional em uma prova real. A dose certa, o produto certo, a frequência certa e o treinamento intestinal progressivo são variáveis que dependem do seu tempo de prova, da sua tolerância digestiva individual, do seu histórico com fueling nos longões e de como o seu metabolismo responde ao estresse combinado de calor, desidratação e esforço prolongado.

No Método Overlife, a estratégia de carboidrato para maratona é construída com esse nível de detalhe e revisada ao longo do ciclo de preparação. Não como protocolo genérico copiado de uma planilha de corredor de elite, mas como plano ajustado à biologia, ao objetivo e ao momento de cada atleta. Porque cruzar a linha de chegada inteiro, com ritmo preservado e trato digestivo cooperando, é resultado de planejamento, não de sorte.

Assinado por

NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA

Nutrição esportiva e estética. Atendimentos presenciais e online.

Material gratuito

Os 5 erros que travam seu resultado

Baixe o guia gratuito e descubra o que está segurando sua evolução, com o que fazer na prática.

Ao baixar, você concorda em receber conteúdos por e-mail e WhatsApp. Cancele quando quiser.