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Exames & Biomarcadores · 29 de agosto de 2026 · 8 min de leitura

EXAMES QUE O MARKETING VENDE: O QUE A CIÊNCIA DIZ SOBRE OS TESTES DA MODA

Todo mês aparece um exame novo prometendo explicar exatamente o que você sente. Cansaço que não passa, inchaço depois de comer, dificuldade para emagrecer, intestino irregular. A oferta costuma vir no mesmo pacote: um painel grande, um relatório colorido, uma lista de alimentos proibidos e a sensação de que finalmente alguém achou a causa. Eu recebo esses relatórios no consultório toda semana, quase sempre já pagos, quase sempre já aplicados como dieta.

Preciso dizer uma coisa incômoda. Alguns desses exames não medem de forma confiável o que dizem medir. Outros medem algo real, que simplesmente não serve para decidir nada.

Isso não é discurso contra exame. Exame bem indicado é uma das ferramentas mais valiosas que eu tenho. O problema é outro: o mercado de diagnóstico descobriu que insegurança vende, e passou a oferecer certeza justamente onde a ciência ainda não tem. Este texto é sobre separar as duas coisas.

UM EXAME SÓ VALE SE MUDAR ALGUMA DECISÃO

Antes de olhar caso a caso, vale fixar o critério. Todo exame precisa passar por três perguntas, e elas são independentes entre si.

A primeira é a validade analítica: o exame mede de forma confiável e reproduzível aquilo que se propõe a medir? Se você dividir a mesma amostra e mandar para laboratórios diferentes, o resultado bate?

A segunda é a validade clínica: aquilo que ele mede tem relação real com o desfecho que interessa? Medir uma molécula com precisão não garante que ela signifique alguma coisa.

A terceira é a utilidade clínica: o resultado muda a conduta? Se a resposta for a mesma com ou sem o exame, ele custou dinheiro e não comprou informação.

Um exame pode passar na primeira pergunta e falhar feio nas outras duas. É exatamente aí que mora a maior parte do que vem a seguir.

TESTE DE INTOLERÂNCIA ALIMENTAR POR IGG

Esse é o campeão de procura no consultório. O paciente chega com uma planilha de 200 alimentos coloridos de verde, amarelo e vermelho, e uma orientação de cortar tudo que ficou em vermelho.

O ponto que quase ninguém explica é o seguinte: o anticorpo está lá mesmo. O exame realmente encontra IgG contra alimentos. O que a literatura contesta é o significado disso.

Em 2008, uma força-tarefa da European Academy of Allergy and Clinical Immunology publicou um relatório na revista Allergy, assinado por Stapel e colaboradores, com o título direto de que o teste de IgG4 contra alimentos não é recomendado como ferramenta diagnóstica. A conclusão dos autores é que o IgG4 específico para alimentos não indica alergia nem intolerância alimentar, e sim uma resposta fisiológica do sistema imune após a exposição a componentes daquele alimento. Ou seja, o anticorpo aparece porque você comeu, não porque aquilo te faz mal. Os autores registram ainda que, em amostras de pessoas saudáveis, resultados positivos apareceram para diversos alimentos sem coincidir com sintomas, e alertam que a triagem ampla levaria a tratamento excessivo em massa. O texto encerra dizendo que o teste é irrelevante para a investigação laboratorial de alergia ou intolerância alimentar e não deve ser realizado diante de queixas relacionadas a alimentos.

No Brasil, o Grupo de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia publicou posicionamento próprio sobre o teste de IgG, na mesma direção das entidades internacionais.

Vale a ressalva honesta: nada disso significa que a sua queixa é inventada. Intolerância à lactose existe e tem teste validado. Alergia alimentar existe, é mediada por IgE e tem métodos próprios de investigação. Doença celíaca existe e tem sorologia definida. O problema não é procurar causa, é procurar com um instrumento que não foi feito para isso.

CORTISOL SALIVAR PARA DIAGNOSTICAR FADIGA ADRENAL

A narrativa é sedutora porque descreve muito bem o que a pessoa sente: o estresse crônico esgotaria as adrenais, o cortisol despencaria, e daí viria o cansaço que não passa. O pacote costuma incluir uma curva de cortisol salivar em quatro coletas e um protocolo de suplementos.

Em 2016, Cadegiani e Kater publicaram na BMC Endocrine Disorders uma revisão sistemática com um título que não deixa margem para interpretação: fadiga adrenal não existe. Dos 3.470 registros rastreados, 58 estudos foram analisados, com mediana de 72 participantes por estudo. A revisão avaliou justamente os métodos vendidos como diagnóstico, incluindo cortisol direto ao despertar, resposta do cortisol ao despertar e ritmo do cortisol salivar, além de outros marcadores. O achado foi de resultados conflitantes entre os estudos, independentemente da metodologia usada. Os autores concluem que não há sustentação para a fadiga adrenal como condição médica real, e que os testes de cortisol não deveriam ser usados na prática clínica com essa finalidade.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia mantém posição pública na mesma linha, afirmando que fadiga adrenal não é um diagnóstico médico reconhecido.

E aqui entra a parte que importa para quem está cansado de verdade. Insuficiência adrenal real existe, é grave e tem investigação bem estabelecida em endocrinologia. Cansaço persistente também é real e merece investigação séria, que costuma passar por sono, ferro, tireoide, ingestão energética, carga de treino e saúde mental. O que não se sustenta é o rótulo, e o exame vendido para confirmá-lo.

Mesa de consultório em madeira clara com estetoscópio de aço escovado e caneta apoiados sobre a superfície limpa, sob luz natural de janela lateral
Cansaço persistente merece investigação séria. O que falta evidência é o rótulo vendido junto com o exame.

MINERALOGRAMA CAPILAR

A proposta é atraente: um fio de cabelo contaria o histórico mineral do seu corpo, revelando deficiências e intoxicações que o sangue não mostraria.

O teste mais duro que esse exame já enfrentou foi publicado no JAMA em 2001, por Seidel e colaboradores. O desenho é simples e brutal: uma amostra de cabelo de uma mesma pessoa foi dividida e enviada a seis laboratórios comerciais. Para mais de dez elementos, incluindo arsênico, chumbo e mercúrio, houve diferença de uma ordem de grandeza ou mais entre os laboratórios. Nenhum par de laboratórios sinalizou os mesmos elementos como alterados para cima. E as interpretações de saúde e as recomendações dietéticas devolvidas junto com o laudo vieram conflitantes entre si, a partir do mesmo cabelo.

Duas ressalvas honestas. O estudo tem mais de duas décadas, e isso precisa ser dito. E a análise de cabelo tem uso legítimo em contextos específicos de toxicologia e avaliação de exposição, com metodologia controlada. O que aquele estudo mostrou é que o produto vendido ao consumidor falhava já na primeira das três perguntas, a validade analítica. Quando um exame não passa nessa etapa, as outras duas nem chegam a ser discutidas, porque não há o que interpretar.

MAPEAMENTO DA MICROBIOTA VENDIDO DIRETO AO CONSUMIDOR

Esse é o mais novo da lista e o que mais cresce. Você coleta em casa, envia, e recebe um relatório com pontuações de saúde intestinal, índice de diversidade e uma lista personalizada de alimentos.

Um estudo publicado na Communications Biology avaliou sete serviços de mapeamento de microbiota vendidos direto ao consumidor. Os pesquisadores compraram três kits de cada empresa e inocularam todos com o mesmo material fecal humano homogeneizado, preparado pelo NIST, o instituto americano de padrões e tecnologia, totalizando 21 amostras idênticas. Os resultados mostraram discrepâncias importantes dentro de uma mesma empresa e entre empresas diferentes. Apenas três gêneros bacterianos apareceram em todas as amostras analisadas. Em uma das empresas, réplicas do mesmo material foram classificadas de forma divergente, com uma delas pontuando abaixo da média onde as outras duas pontuaram acima, o que gerou classificações contraditórias de saúde intestinal a partir de material idêntico.

No campo clínico, um consenso internacional sobre testagem de microbioma na prática clínica, publicado em 2024 na Lancet Gastroenterology and Hepatology, reuniu 69 especialistas de 18 países em processo Delphi. A conclusão é que não há evidência suficiente para recomendar o uso rotineiro e amplo da testagem de microbioma, e o documento desencoraja a solicitação direta pelo consumidor com finalidade diagnóstica, defendendo supervisão profissional na indicação e na interpretação.

Repare que aqui a honestidade exige nuance. A ciência da microbiota é real, ativa e promissora. O que ainda não existe é o produto clínico acabado que o marketing já está vendendo.

Kit de coleta domiciliar sobre bancada de pedra clara, com caixa de papelão kraft fechada sem impressão ao lado de tubo plástico transparente com tampa
Sete serviços, o mesmo material fecal padronizado, resultados que não bateram entre si.

O PAINEL COMPLETO DE VITAMINAS EM QUEM NÃO TEM SINTOMA

Esse é o mais silencioso da lista, porque parece inofensivo. Se é só sangue, por que não medir tudo de uma vez?

A Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos, a USPSTF, revisou em 2021 a triagem de deficiência de vitamina D em adultos assintomáticos e emitiu recomendação de grau I, que significa evidência insuficiente para avaliar o balanço entre benefícios e riscos dessa triagem.

É fundamental ler isso com precisão, porque costuma ser distorcido nos dois sentidos. Grau I não quer dizer que vitamina D não importa, nem que dosar nunca faz sentido. Quer dizer que, para rastrear população assintomática de forma indiscriminada, a evidência disponível não permite concluir se o benefício supera o dano. Em quem tem fator de risco, sintoma ou condição que justifique, a conversa é outra e é clínica.

Na mesma direção prática, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial publicou recomendações dentro da campanha Choosing Wisely Brasil, entre elas evitar exames laboratoriais pré-operatórios de rotina sem indicação clínica em cirurgias de baixo risco, e não solicitar múltiplos exames na avaliação inicial de suspeita de doença da tireoide, começando pelo TSH e seguindo para T4 livre apenas se o TSH vier alterado. O princípio é o mesmo: sequência guiada por hipótese vale mais que painel amplo.

O CUSTO QUE NINGUÉM COLOCA NA CONTA

O prejuízo de um exame mal indicado raramente é só o valor pago. Ele começa depois, no que o resultado dispara.

Uma pesquisa nacional publicada por Ganguli e colaboradores no Journal of General Internal Medicine, em 2020, entrevistou 376 médicos sobre cascatas de investigação a partir de achados incidentais. Entre os que relataram o episódio mais recente, apenas 58,6 por cento apontaram a importância clínica como motivador para seguir investigando. Os demais fatores relatados incluíram normas de prática da comunidade, em 49,7 por cento, e preocupação com processo judicial, em 35,7 por cento. Ou seja, boa parte da investigação em cadeia é movida por algo diferente de necessidade clínica.

Na nutrição, a cascata tem uma forma própria e eu vejo isso com frequência. O painel de IgG volta com 30 alimentos em vermelho, a pessoa corta os 30, a variedade da dieta despenca, o convívio social fica mais difícil, a adesão cai, e o sintoma original muitas vezes continua no mesmo lugar. Em quem já tem uma relação frágil com comida, esse tipo de lista pode empurrar para um padrão restritivo que custa caro. Essa é a minha leitura clínica do que observo no consultório, e é justamente por isso que eu prefiro começar por hipótese e não por painel.

Bancada de laboratório clínico com micropipeta de precisão em suporte e fileira de tubos de ensaio de vidro vazios sem etiqueta em estante metálica, sob luz natural lateral
O custo de um exame mal indicado quase nunca termina no valor pago por ele.

COMO DECIDIR ANTES DE PAGAR

  • Pergunte ao profissional que pediu, ou a quem vende, uma frase objetiva: qual conduta muda se der alterado, e qual conduta muda se der normal. Se as duas respostas forem parecidas, o exame não está comprando decisão.
  • Desconfie de painel que testa dezenas ou centenas de itens de uma vez em quem não tem hipótese definida. Quanto mais itens, maior a chance de aparecer algo alterado por puro acaso.
  • Desconfie quando o exame já vem com a solução acoplada, principalmente quando quem interpreta o resultado é quem vende o protocolo ou o suplemento indicado no relatório.
  • Verifique se existe posicionamento de sociedade científica sobre aquele exame. Para IgG alimentar, cortisol salivar como diagnóstico de fadiga adrenal e microbiota direto ao consumidor, esse posicionamento existe e é público.
  • Leve sintoma, história e contexto antes do exame. A boa investigação começa com hipótese e usa o laboratório para confirmar ou descartar, nunca o contrário.
  • Não corte alimentos com base em teste sem validação. Restrição alimentar tem custo nutricional, social e comportamental, e precisa de justificativa proporcional.
  • Se você já fez um desses exames e gastou dinheiro, não se cobre por isso. O material de venda é convincente de propósito. O que importa agora é não construir uma dieta inteira em cima dele.

Existe uma diferença enorme entre investigar e colecionar números. Investigar é partir de uma pergunta clara e escolher o exame que responde a ela. Colecionar números é comprar um painel grande, encontrar alguma coisa fora da faixa e depois inventar uma história que explique o achado. O segundo caminho é mais fácil de vender e quase sempre mais caro no fim.

É assim que o Método Overlife trata exame. Primeiro a história clínica, a rotina, o treino, o sono e o que você come de verdade. Depois o exame certo, pedido com hipótese e lido dentro do seu contexto, junto do seu médico quando for o caso. Só então o refino, e apenas quando existe um buraco real para preencher. Se quiser começar por esse caminho, o diagnóstico gratuito aqui do site é o primeiro passo.

Assinado por

NUTRICIONISTA ARIEL PERAZZA

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